Com o prazo final das convenções marcado para o dia 5 de agosto, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Dino chegam à reta final do processo sem ampliar o leque de alianças. A avaliação é de uma análise do Valor, que aponta uma estratégia deliberada de consolidação das bases em um cenário eleitoral ainda polarizado.
Lula, provável candidato do PT à Presidência, tem conduzido as convenções de seu partido sem incorporar novas siglas ao palanque. Apesar de conversas com partidos como o PSB e o PCdoB, as negociações não avançaram para acordos formais em todas as regiões. O PT, segundo a análise, optou por fortalecer a relação com os movimentos sociais e com a base sindical, em detrimento de costuras amplas com outras legendas.
Flávio Dino, nome cotado para a vice-presidência na chapa de Lula, também mantém um perfil discreto nas convenções do PSB. No Maranhão, onde possui forte capital político, o senador tem reforçado a militância local, mas não buscou novas adesões que pudessem ampliar a frente de apoio. A leitura é de que a prioridade é evitar dissidências internas e garantir um núcleo coeso para a campanha.
Reta final sem ampliação
O movimento de Lula e Dino contraria a expectativa inicial de que a aproximação entre PT e PSB, anunciada no início do ano, resultasse em uma coalizão maior. Nos bastidores, a análise do Valor aponta que a resistência de certas lideranças partidárias a uma costura mais ampla travou as negociações. O receio de que novas alianças diluíssem o discurso de enfrentamento ao governo atual teria sido decisivo.
Além disso, há um cálculo eleitoral que justifica a postura. Em um cenário marcado pela polarização, a estratégia de concentrar esforços naqueles que já são simpáticos às candidaturas pode ser mais eficiente do que investir tempo em negociações complexas. O histórico de campanhas anteriores mostra que, muitas vezes, a adesão de partidos com pouco peso eleitoral não se converte em votos expressivos.
Foco na fidelização
Esse raciocínio é reforçado pelo comportamento do eleitorado. Pesquisas de intenção de voto ainda não foram divulgadas oficialmente, mas o clima nas redes e nos eventos partidários indica que a eleição de 2026 deve repetir o viés de alta rejeição, favorecendo candidaturas que dialoguem com o núcleo duro do eleitorado. Assim, em vez de ampliar o arco de alianças, Lula e Dino têm buscado consolidar a imagem de que representam uma alternativa de continuidade das políticas sociais dos governos do PT.
Esse foco, no entanto, não está isento de riscos. A ausência de novas alianças reduz a capilaridade da campanha em estados onde o PT e o PSB têm menos força, como em algumas regiões do Centro-Oeste e do Sul. A análise do Valor lembra que, para vencer em primeiro turno, uma candidatura precisa de apoio em pelo menos 14 estados, um cenário que ainda parece distante para a atual configuração.
Impacto para a campanha
Sem o incremento de novas siglas, a campanha de Lula e Dino terá de contar com a estrutura já disponível dos partidos históricos da base, como o PCdoB, que deve formalizar apoio nas próximas horas, e o PV, que também participa da frente. Ainda assim, a falta de um número maior de partidos pode limitar o tempo de rádio e TV e o acesso a fundos eleitorais, fatores determinantes em uma disputa nacional.
O prazo final das convenções é 5 de agosto, conforme estabelecido pelo Tribunal Superior Eleitoral. Até lá, qualquer novidade pode alterar o cenário. A expectativa de que Lula e Flávio Dino surpreendam com anúncios de última hora existe, mas, segundo a análise, é considerada baixa. O que se desenha é uma corrida presidencial com dois polos bem definidos, onde as alianças já foram definidas nos limites do necessário.
Para a equipe de campanha do PT, a estratégia é encarada como uma aposta de longo prazo. A fidelidade da base seria mais valiosa do que números de partidos aliados. Resta saber, contudo, se essa percepção se confirma nas urnas, quando o eleitorado de centro procurará opções que representem moderação. A análise do Valor conclui que, ao não ampliar alianças, Lula e Dino deixam espaço para que outras candidaturas capturem esse eleitorado, aumentando o risco de um segundo turno mais disputado.



