O mercado de ações brasileiro pode repetir um comportamento já observado em eleições anteriores, segundo relatório do JPMorgan sobre cenário macroeconômico, eleições e mercados. O banco afirma que a Bolsa brasileira apresenta desempenho compatível com o padrão histórico de anos eleitorais, caracterizado por fraqueza nos meses que antecedem a votação e recuperação após o primeiro turno.
Desempenho inferior desde abril
Conforme apontam a estrategista Emy Shayo e sua equipe, que assinam o relatório, as ações brasileiras acumulam uma performance 24% inferior à dos mercados emergentes desde abril. Esse movimento é considerado consistente com o histórico de desempenho abaixo do esperado nos seis meses que antecedem as eleições presidenciais.
Para os estrategistas, a combinação de incertezas fiscais, volatilidade política e indefinição sobre o resultado eleitoral tende a manter os investidores cautelosos no curto prazo. O banco avalia que a disputa presidencial segue aberta e deve permanecer competitiva até a reta final da campanha.
Pesquisas mostram Lula à frente, mas sem definição
As pesquisas compiladas pelo JPMorgan mostram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva à frente em um eventual segundo turno, com vantagem de cerca de 3,5 pontos percentuais sobre Flávio Bolsonaro. Ainda assim, a diferença permanece dentro da margem de erro em diversos levantamentos, o que impede qualquer conclusão definitiva sobre o resultado. O banco também considera improvável o surgimento de uma candidatura viável de terceira via neste estágio da corrida eleitoral.
Histórico sugere rali de 10% no mês da eleição
Apesar do cenário de curto prazo mais turbulento, o histórico eleitoral oferece algum alento para investidores em Bolsa. A análise do JPMorgan sugere que um rali de aproximadamente 10% durante o mês da eleição seria compatível com os padrões observados em pleitos anteriores. Esse movimento normalmente começa após o primeiro turno, independentemente de quem esteja liderando a disputa.
O comportamento posterior também tende a seguir um roteiro conhecido. Segundo o banco, após a recuperação inicial, as ações brasileiras costumam apresentar desempenho próximo ao dos demais mercados emergentes nos seis meses seguintes à eleição.
Fluxo estrangeiro e fundamentos corporativos
Outro fator que pode ajudar o mercado é o retorno gradual do investidor estrangeiro. O JPMorgan destaca que os fluxos internacionais melhoraram recentemente, com entrada de R$ 1,5 bilhão em um único pregão e saldo positivo de R$ 2,4 bilhões no acumulado do mês até a data do relatório.
Além disso, a instituição observa que o desempenho das ações em 2026 vem sendo sustentado principalmente pelo crescimento dos lucros corporativos, e não pela expansão dos múltiplos de valuation. Isso sugere que os fundamentos das empresas continuam desempenhando papel importante mesmo em meio ao ruído político.
Projeções macroeconômicas e Selic
Do lado macroeconômico, o banco revisou para cima sua projeção de crescimento do PIB brasileiro em 2026, de 1,8% para 2%, refletindo os efeitos das medidas fiscais e parafiscais adotadas pelo governo. Contudo, vê desaceleração da atividade ao longo do segundo semestre, à medida que o impulso inicial perde força.
O JPMorgan também segue com a previsão de mais dois cortes de 0,25 ponto percentual na Selic até setembro, levando a taxa básica para 13,75% no fim do ano. A melhora temporária da inflação abre espaço para o Banco Central continuar reduzindo os juros, embora as incertezas fiscais e eleitorais limitem uma flexibilização mais agressiva.
Riscos fiscais e perspectivas
Na avaliação dos estrategistas, o principal risco para os ativos brasileiros continua sendo o ambiente político e fiscal após as eleições. O banco alerta que medidas de estímulo adotadas antes do pleito podem gerar compromissos permanentes de gastos ou reduzir receitas estruturais a partir de 2027, aumentando a preocupação dos investidores com a sustentabilidade das contas públicas.
Ainda assim, se o padrão histórico voltar a se repetir, o período de maior aversão ao risco pode estar se aproximando do fim, abrindo espaço para uma recuperação da Bolsa conforme o calendário eleitoral avançar e as incertezas sobre o resultado começarem a se dissipar.



