Integrantes do governo federal consideram que a possível implementação do tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros pelos Estados Unidos, a partir desta quarta-feira (15), somente poderá ser negociada após as eleições de outubro de 2026. Esse cenário tem sido levantado por auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que avaliam que os EUA podem 'reacomodar' o senso de urgência sobre a tarifa, focando no resultado eleitoral.
Decisão do USTR e reação do Planalto
Uma decisão do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) sobre o tema pode ser tomada a partir de hoje. Embora o Palácio do Planalto pontue que não dá para antecipar a reação do governo de Donald Trump, auxiliares de Lula trabalham com a perspectiva de que os EUA podem optar por esperar o vencedor das urnas para definir os parâmetros de negociação, uma vez que Lula e Flávio Bolsonaro são opções diametralmente opostas.
Foco americano na eleição brasileira
Na visão do governo Lula, os EUA consideram que, com Flávio Bolsonaro, Trump teria mais facilidade para conseguir o que quer do Brasil, diferentemente da gestão petista. Em caso de vitória, Lula representaria a continuidade no modelo de relação comercial atual, evitando concessões aos EUA em troca de alívio tarifário e mantendo o discurso geopolítico em favor do multilateralismo e das regras da Organização Mundial do Comércio (OMC). O governo Lula, por exemplo, não abre mão de concessões quanto ao Pix, apontado pela investigação do USTR como instrumento que cria vantagens competitivas em relação a empresas privadas estrangeiras, nem de eliminar o imposto de importação do etanol americano, que teria forte impacto no mercado interno.
Próximos passos após tarifaço
A partir da decisão do governo americano na quarta-feira, o Palácio do Planalto vai calibrar uma resposta e começar a discutir a reação. Há expectativa de que, junto com o tarifaço, os EUA anunciem o processo de implementação. A possibilidade de reciprocidade nas sanções será discutida apenas quando o governo tiver em mãos a lista de produtos que sofrerão as tarifas. Auxiliares de Lula pontuam que é fundamental aguardar a decisão dos EUA e analisar item por item para medir e planejar a reação brasileira.
Pedido de Flávio Bolsonaro e crítica de Lula
Em documento enviado ao USTR, Flávio Bolsonaro afirmou que a sobretaxa proposta daria a Lula 'exatamente a vitória política que ele vem buscando' e sugeriu que a negociação ocorresse após as eleições, 'uma vez que o cenário político que determinará a viabilidade de qualquer solução negociada será redefinido dentro de aproximadamente noventa dias'. O senador disse: 'Adotar uma medida irreversível agora — no momento de maior impacto de mobilização política — representa um mau uso do timing para qualquer instrumento de pressão, independentemente de qual partido isso favoreça. Preservar as opções disponíveis é a escolha estratégica superior.' O pedido de adiamento, em vez de cancelamento, foi usado por Lula para criticar o senador.
Entenda o tarifaço
O tarifaço foi sugerido pelo USTR, órgão responsável pela política comercial dos EUA, que classifica uma série de atos, políticas e práticas brasileiras como 'irracionais' ou capazes de restringir o comércio norte-americano. A investigação foi aberta em julho de 2025 por determinação de Donald Trump, com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, instrumento já utilizado em disputas contra a China. Entre os principais pontos apontados pelos americanos está o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos, o Pix. Segundo o relatório, o Banco Central do Brasil atuaria simultaneamente como regulador e operador do sistema, criando vantagens competitivas em relação a empresas privadas estrangeiras. Os EUA também questionam decisões de tribunais brasileiros envolvendo plataformas digitais, afirmando que autoridades judiciais emitiram ordens sigilosas para remoção de conteúdos políticos e suspensão de perfis em redes sociais, inclusive de residentes nos Estados Unidos.



