O golpismo é a herança que Jair Bolsonaro transmitiu em vida para seu primogênito. Anteontem, diante de diplomatas estrangeiros, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) reencenou a farsa da suposta insegurança de nosso sistema eleitoral, uma das práticas que consagraram seu pai como a maior ameaça à democracia brasileira na Nova República.
Flávio pede observadores e repete mentiras sobre urnas
Durante o encontro em Brasília, que reuniu representantes de mais de 40 países, além de autoridades da União Europeia e da Liga dos Estados Árabes, o candidato à Presidência pediu o envio da “maior quantidade de observadores possível” para as eleições de outubro, afirmando que as urnas eletrônicas usadas no Brasil teriam “a mesma origem” dos equipamentos usados na Venezuela: a empresa Smartmatic, citada em um documento da CIA sobre uma suposta fraude eleitoral ocorrida no país vizinho em 2012. É mentira.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já afirmou por escrito – e categoricamente – que equipamentos ou softwares da Smartmatic, ou de qualquer empresa estrangeira, jamais foram usados em eleições no País. Todo o material foi concebido, produzido e gerido inteiramente pelo TSE, com tecnologia nacional auditável por partidos políticos, especialistas e órgãos de fiscalização do Brasil e do exterior. Jamais foi encontrada evidência de fraude em qualquer das eleições realizadas desde 1996 por meio eletrônico. O Brasil, ao contrário, é referência internacional em rapidez e segurança eleitoral, precisamente em razão dos sistemas de votação e apuração que Flávio, como pastiche do pai, acusa, sem provas, de serem passíveis de violações.
Manual do golpista moderno: semear dúvidas sem provas
Nada aqui é por acaso. Flávio conhece bem o manual do golpista moderno: lança dúvidas no ar, insinua que forças ocultas estão atuando para melar as eleições, para logo em seguida negar que esteja fazendo qualquer acusação. “Não estou questionando o sistema de votação brasileiro”, disse o senador, explicando que somente, ora vejam, aludia a um relatório da CIA. Não é difícil perceber a malícia. Bolsonaro também jamais assumiu abertamente as suspeitas que adorava espalhar. Para os golpistas, basta semear a dúvida – matéria-prima das teorias da conspiração que animam esses liberticidas.
Flávio é tépido como democrata, mas não deixa de ser lamentável o fato de que um cidadão que pretende liderar a Nação minta com tanto desassombro. O senador chegou a afirmar que Bolsonaro está preso por ter se reunido com embaixadores, em 2022, apenas para expressar “preocupação” com a segurança eleitoral. Convenientemente, o filho omite que a condenação do pai a mais de 27 anos de prisão, em caráter definitivo, decorreu de uma tentativa de golpe de Estado, e não daquela reunião – da qual adveio a inelegibilidade do ex-presidente, por abuso de poder político.
Eco de Trump e estratégia autoritária
Com intervalo de poucos dias, o discurso golpista de Flávio ecoa o de Donald Trump, de mesmo teor, feito em rede nacional nos EUA, no qual o presidente americano voltou a alegar, mais uma vez sem provas, que a vitória de Joe Biden, em 2020, foi fraudada. Para autoritários como Trump e os Bolsonaros a verdade dos fatos é irrelevante: basta semear a dúvida para deslegitimar, no futuro, um resultado eleitoral desfavorável a eles. Eis o espírito de uma família que, a despeito de ter feito da política eleitoral um bem-sucedido empreendimento comercial, jamais admitirá a possibilidade de perder uma eleição limpa.
O ataque de Flávio às urnas eletrônicas não é deslize. É mais um ato de irresignação com o Estado Democrático de Direito. Lembremos que, em entrevista à Folha de S.Paulo, em junho do ano passado, o senador já havia admitido que um candidato à Presidência apoiado por seu pai teria de, necessariamente, garantir o cumprimento de um eventual indulto a Jair Bolsonaro, “mesmo que” o Supremo Tribunal Federal o considerasse inconstitucional. Indagado sobre a hipótese de ser este, de fato, o destino dado ao indulto pela Corte, Flávio admitiu abertamente o “uso da força”. Precisa mais?
Desgaste com falácias sobre urnas eletrônicas
É exasperante que, em 2026, ainda tenhamos de dedicar energia ao desmentido de falácias sobre as urnas eletrônicas. Postulantes à chefia de Estado e de governo deveriam estar debruçados sobre os problemas reais que o Brasil tem de enfrentar. A lisura das eleições nunca foi um deles.



