No dia 28 de julho, o Maranhão celebra o feriado estadual da Adesão do Maranhão à Independência do Brasil. A data remete à assinatura do documento que oficializou a entrada da província no Império do Brasil, em 28 de julho de 1823. Contudo, segundo o historiador Marcelo Cheche Galves, esse processo foi marcado por resistência, conflitos e interesses ligados às relações com Portugal, tendo características que se assemelham mais a uma rendição do que a uma adesão voluntária.
Relações com Portugal versus Rio de Janeiro
De acordo com Marcelo Cheche Galves, a resistência maranhense estava profundamente enraizada nas relações políticas e comerciais que a província mantinha com Portugal. Naquele período, a conexão com Lisboa era muito mais forte do que com o Rio de Janeiro, que se tornara o centro do governo após a transferência da corte portuguesa para o Brasil em 1808. “Desde sempre as relações dessas províncias se deram com Lisboa, as relações políticas, administrativas, sempre com Lisboa. A transferência da corte não muda para essas províncias o eixo do centro de autoridade. O Maranhão permanece conectado a Portugal, embora o rei estivesse no Rio”, explicou o historiador.
Para parte da elite maranhense, especialmente aqueles envolvidos no comércio e na produção agrícola, era mais vantajoso manter os vínculos com Portugal do que substituí-los por uma nova relação com o Rio de Janeiro. Essa visão pragmática influenciou a postura inicial da província diante do processo de independência.
Conflitos marcaram o caminho para a adesão
A independência no Maranhão não foi pacífica. Segundo Galves, tropas vindas do Ceará e do Piauí, que já haviam aderido ao Império do Brasil, entraram na província e avançaram em direção ao território maranhense. O percurso das tropas passou por áreas que hoje correspondem a municípios como São Bernardo e Chapadinha, até chegar à região do Rio Itapecuru, uma das principais zonas produtoras de algodão da província na época. “O Maranhão era o principal produtor de algodão da América portuguesa na época. Isso assusta os grandes proprietários, porque uma rebelião de escravizados ali teria para eles consequências inevitáveis”, afirmou Galves.
O avanço das tropas fez com que grandes proprietários rurais, que até então mantinham vínculos com Portugal, passassem a apoiar a independência como forma de preservar seus interesses e evitar uma instabilidade social. “Os grandes proprietários, temerosos por essa movimentação, aderem. Então, quando eles aderem, eles marcham em direção a São Luís, controlando essas tropas, que perdem aquele caráter mais social”, explicou.
Chegada de Cochrane e o cerco a São Luís
A situação se resolveu com a chegada do almirante escocês Thomas Cochrane à Baía de São Marcos, em 26 de julho de 1823, enviado pelo imperador como representante do governo imperial. O cerco à ilha de São Luís culminou, dois dias depois, em 28 de julho, com a adesão formal do Maranhão à Independência. Segundo Marcelo Cheche Galves, embora o termo “adesão” seja o utilizado oficialmente nos documentos, no caso maranhense o processo teve características de uma rendição. “A palavra adesão é o termo formal utilizado no documento da época. Mas, no caso do Maranhão específico, foi muito mais uma rendição, porque São Luís era uma cidade portuguesa e resiste até quando pode a esse movimento”, explicou.
Importância de lembrar o 28 de julho
Para o historiador, celebrar o 28 de julho é fundamental porque mostra que a Independência do Brasil não ocorreu de forma uniforme em todo o território. A data ajuda a compreender que a formação do Brasil envolveu diferentes projetos e interesses regionais. “A gente sempre tem uma tendência de criar uma história nacional como se ela fosse única e como se ela sempre existisse a partir da capital, no caso Rio de Janeiro. Então é um momento importante para lembrar da diversidade desse território naquele momento e da diversidade que forma esse país até hoje”, concluiu.



