A escolha de vice-presidentes em uma disputa eleitoral não é uma decisão trivial. Ela indica a segunda pessoa na hierarquia republicana, alguém que pode assumir a presidência em caso de impedimento. Essa escolha obedece a critérios políticos fundamentais: representatividade partidária, potencial de captação de eleitores, influência na arrecadação de recursos, ausência de comprometimento com corrupção, origem regional que agregue votos e perfil religioso ou de gênero que atraia públicos específicos.
Vices que assumiram a presidência
Na história republicana recente, três vice-presidentes assumiram o poder: Itamar Franco (vice de Fernando Collor), José Sarney (vice de Tancredo Neves) e Michel Temer (vice de Dilma Rousseff). Todos tinham representatividade parlamentar, nomes públicos reconhecidos, carreira consolidada e força eleitoral. Itamar Franco foi o patrono do Plano Real, que transformou a economia brasileira. Já Marco Maciel é exemplo de vice que, mesmo sem assumir, exerceu importante papel republicano.
Cenário atual: Lula se destaca
Na disputa atual, o presidente Lula repete a chapa anterior com um governador reconhecido, ex-tucano e católico ligado ao Opus Dei, que se apresenta como de esquerda. O filósofo Ortega y Gasset disse: "Ser da esquerda, assim como ser da direita, é uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser um imbecil: na verdade, ambas são uma forma de hemiplegia moral". Apesar disso, Lula e o PT fizeram o dever de casa, olhando para fora de sua bolha e visando ao eleitorado geral.
Flávio Bolsonaro: refém de trapalhadas
Flávio Bolsonaro, principal oponente, está cada vez mais enredado em seus próprios erros. Seu comprometimento com Vorcaro na arrecadação de recursos para um filme, sua submissão à política americana quando seu irmão instigou tarifaços contra produtos brasileiros e o rompimento público com a madrasta mostram uma candidatura atordoada. Esse rompimento afasta o público feminino e evangélico, vitais para sua vitória. A escolha de vice, homem ou mulher, não apresenta representatividade, sendo desconhecidos do grande público, sem ampliação partidária.
Caiado e Kassab: opção dentro do partido
Ronaldo Caiado escolheu Gilberto Kassab como vice, reconhecido por suas habilidades de articulação, mas ambos são do mesmo partido. A decisão não amplia o eleitorado. As razões de unificação partidária e captação de recursos não mudam o quadro eleitoral, que deveria ser a maior preocupação. Para uma candidatura que precisa avançar, essas questões já deveriam estar equacionadas.
Renan Santos e Romeu Zema: vices desconhecidos
Renan Santos, sem fundo partidário, eleitoral ou captação significativa de recursos, também escolheu um vice desconhecido, o que não alavanca sua candidatura. Romeu Zema cogita escolher um empresário amigo, amplamente desconhecido e do mesmo Estado. Candidatos devem ir além de seu escopo inicial para conquistar o grande público, sob risco de não decolarem.
Não se trata de juízo de valor sobre essas pessoas, mas de assinalar as dificuldades segundo uma liturgia de poder que deveria ser outra. Quem souber fazer essa lição se posiciona à frente nas pesquisas eleitorais.



