Lucas Roggia: Ex-promessa do Inter, aposentadoria precoce e depressão
Lucas Roggia: aposentadoria precoce e luta contra depressão

Lucas Roggia, ex-atacante revelado pelo Internacional e que passou pelo Milan, revela os bastidores de sua aposentadoria precoce e a luta contra a depressão. Considerado uma das grandes promessas do clube gaúcho no início da década de 2010, ele conviveu com estrelas como Ibrahimovic e Thiago Silva, mas as lesões interromperam uma trajetória que parecia promissora. Hoje, aos 32 anos, atua como investidor imobiliário no litoral norte do Rio Grande do Sul.

Início no Inter e a relação com Mino Raiola

Roggia chegou ao Inter aos 12 anos, após se destacar no Encontro de Futebol Infantil Pan-Americano (Efipan), em Alegrete. Na base, era visto como uma das principais promessas, seguindo a linhagem que revelou nomes como Nilmar, Rafael Sobis, Luiz Adriano e Alexandre Pato. A expectativa era tão grande que Léo Ferreira, atual agente de Roger Machado, o indicou junto com João Paulo a Mino Raiola, um dos empresários mais influentes do mundo, que representava Ibrahimovic, Haaland, Pogba e Balotelli.

Raiola veio a Porto Alegre em 2009 para renovar o contrato dos garotos que ainda atuavam no time sub-20. Os valores pedidos foram considerados altos, gerando um imbróglio com o Inter. Lucas Roggia, no entanto, não pretendia prejudicar o clube do coração. “Ele pediu valores e o Inter disse que não pagaria. Estava para ir para Inter de Milão ou Ajax. Toda minha família é colorada e eu também. O Giovanni Luigi ainda não era o presidente, mas conversou com o Mino para apaziguar e fecharam o contrato”, recorda o ex-jogador.

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Com contrato renovado, Roggia passou a ter salário de profissional, mesmo ainda na base. Dirigentes esperavam que a renovação o fizesse mudar de agente, algo que nunca passou pela cabeça do atacante. “Nossa relação era de pai e filho. O Mino era muito bom, com pulso firme. Falava o que vinha na cabeça. Ele era uma espécie de popstar. As brigas com o Inter foram para buscar o melhor para nós”, explica.

A experiência no Milan

Sem espaço no Beira-Rio, Raiola conseguiu um empréstimo de Roggia ao Milan. Na Itália, o jovem atacante conviveu com estrelas como Ibrahimovic, Robinho, Thiago Silva, Kevin Prince Boateng, Gattuso, Zambrotta, Pato e Cassano. Com Cassano e Pato, estreitou relação. “Foi uma experiência surreal estar com esses caras. Eu era bem próximo do Cassano, que me acolheu quando cheguei e era bem resenha. O Rodrigo (Ely), que jogou no Grêmio, me deu suporte, e o Pato pela amizade do Inter. Saía também com o Juan Jesus, que estava na Inter de Milão. Era meu parceirão”, conta.

Roggia não chegou a atuar no time principal do Milan, defendendo apenas o Milan B. Mas lembra com orgulho o período em que dividiu vestiário com as estrelas. Muitos desses jogadores ele só conhecia pela televisão até enfrentá-los na Copa Audi, um ano antes. Na ocasião, o Inter empatou em 2 a 2 e venceu o Milan por 2 a 0 nos pênaltis. No dia anterior, esteve em campo no empate com o Barcelona, quando se encantou com Iniesta. “O mais impressionante foi o Iniesta. Que jogador! Foi uma competição muito bacana, com a Allianz Arena lotada. Foi um momento de desfrutar”, lembra.

Fernandão e Falcão como mentores

No torneio, Fernandão iniciava a trajetória como diretor técnico. O Eterno Capitão se aproximou de Zé Mário, João Paulo e Lucas Roggia, dando dicas dentro e fora de campo. Antes do retorno de Fernandão, Falcão o fixou no grupo principal e trabalhou para aprimorar questões técnicas. “No momento, você treme. Era o rei, né? Fazia treinos específicos e era muito técnico. Me explicava como correr, fazer o facão, como agir quando estava marcado. São toques que fazem toda a diferença. Uma pena que não pude ter muito tempo com o Falcão. Acho que se tivesse ficado, eu teria mais oportunidades. Ele gostava muito da base”, acredita.

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Rodagem após Inter e Milan

Após as passagens por Inter e Milan, Roggia rodou por Twente (Holanda), Beira-Mar (Portugal), Juventude, Passo Fundo, São Paulo-RS, Pelotas e Cianorte-PR. Desde Portugal, sofreu com lesões que o impediram de ter sequência e chamar a atenção de clubes maiores. A frustração o fez refletir e encerrar a carreira precocemente. “O jogador sai de casa aos 12 anos, chega a grandes clubes por volta dos 20, mas depois precisa atuar em equipes menores, sem sequência. As lesões limitaram a sequência, enquanto os clubes tinham menos recursos. Me considero inteligente, gosto de estudar e achei que fosse o momento certo”, lembra.

“Poderia jogar mais uns cinco ou seis anos, mas em que mercado? Com mais dois anos, já teria 32 e quem iria me querer? Pela saúde física e mental, resolvi parar”, completa.

Aposentadoria e depressão

A aposentadoria do futebol ocorreu em meio à pandemia do coronavírus, o que trouxe mais um desafio. Sem os treinos e viagens de uma vida que levava há quase duas décadas, se viu perdido. A mudança de rotina abalou Lucas. Ele lembra um episódio com Nilmar, com quem se encontrou em um café. O ex-centroavante se aposentou ao ter diagnosticada depressão no período da Vila Belmiro. Lucas viveu cenário semelhante. As pessoas perceberam uma mudança de comportamento. Um amigo que trabalha com Vargas o orientou a procurar um especialista. “Fui ficando mais triste. Queria ficar mais em casa e todo mundo me achando estranho. Foi quando busquei ajuda. A médica disse que poderia ser depressão e fiz o tratamento. Hoje estou melhor”, garante.

Nova carreira no mercado imobiliário

Livre de medicamentos, o ex-atacante sente-se vitorioso por ter se despido do preconceito e pedido ajuda. Agradece ao carinho da família e amigos. Leva a experiência como lição e tenta manter contatos com jogadores em fim de carreira para falar sobre o que passou. De vez em quando, se aventura no futebol society ou nas quadras de tênis, mas concentra o foco no trabalho. Investidor desde os tempos de jogador, tornou-se sócio do primo Christian em investimentos imobiliários e de construção civil. Atuam principalmente no litoral norte do Rio Grande do Sul e em Gramado, com foco em residências de alto padrão. “Chego de manhã, faço os pedidos e confiro como estão as obras”, detalha.