Pesquisadora critica foco em líderes do crime organizado no Brasil
Crítica à estratégia de combate ao crime organizado

Durante décadas, a estratégia de combate ao crime organizado no Brasil foi construída em torno da prisão ou da eliminação das grandes lideranças das facções. A lógica era simples: sem seus chefes, as organizações perderiam capacidade de comando e acabariam desarticuladas. Para a pesquisadora Carolina Grillo, do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (GENI-UFF), essa visão já não corresponde ao funcionamento das principais organizações criminosas do país. A avaliação foi feita durante o Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, desta semana.

Estado persegue estrutura hierárquica que não existe mais

Segundo ela, o Estado continua perseguindo uma estrutura hierárquica que, na prática, deixou de existir. “Primeira coisa é a gente ter uma representação adequada dessas organizações e entender o formato reticular delas, o quanto são diferentes mercados sendo operados e interligados por uma série de atores intermediários. Não dá para pensar crimes financeiros, lavagem de dinheiro, corrupção e crime violento como fenômenos separados. Eles fazem parte de uma mesma cadeia”, afirmou durante participação no programa Mapa de Risco.

Na avaliação da pesquisadora, um dos principais equívocos das políticas de segurança pública é tratar organizações como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como pirâmides, nas quais a prisão do líder seria suficiente para provocar o colapso da estrutura. “As representações equivocadas sobre o crime organizado muitas vezes pensam nesse formato piramidal. Primeiro se encarcerou em massa a base empobrecida dessas organizações, que é totalmente substituível. Depois surgiu a ideia de ir atrás da cabeça da organização. Então entra-se numa busca míope por identificar, investigar, capturar ou matar a grande liderança, como se isso tivesse efeito de desmantelamento”, disse.

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Lideranças são facilmente substituíveis

Para Carolina, a prisão ou morte de um chefe produz impacto muito menor do que normalmente se imagina. Isso porque as facções desenvolveram mecanismos internos capazes de substituir rapidamente seus dirigentes. “Na verdade, a posição de liderança é a mais facilmente substituível de todas, porque não faltam candidatos dentro dessas organizações para assumir posições de comando. Inclusive existem disputas sucessórias que acabam reorganizando rapidamente essas estruturas.”

Segundo ela, concentrar os esforços apenas na captura de líderes faz com que o Estado deixe de atacar aquilo que efetivamente sustenta o crime organizado: sua estrutura econômica.

O crime funciona como uma rede

Na avaliação da pesquisadora, as organizações criminosas deixaram há muito tempo de depender exclusivamente do tráfico de drogas. Hoje, afirma, elas articulam mercados ilegais diversos e mantêm relações permanentes com atividades da economia formal. “São diferentes mercados sendo operados e relacionados entre si por atores intermediários. Crimes financeiros, lavagem de dinheiro, corrupção e crime comum violento fazem parte da mesma engrenagem.”

Essa mudança, segundo Carolina, exige que o combate também deixe de ser concentrado apenas em operações ostensivas e passe a priorizar inteligência financeira, investigação patrimonial e desarticulação das redes que permitem às facções movimentar recursos.

O foco na base também não resolveu

A pesquisadora afirma que a estratégia anterior, baseada no encarceramento em massa da base das organizações criminosas, tampouco produziu os resultados esperados. Ela lembra que, apesar do crescimento expressivo da população carcerária nas últimas décadas, as maiores facções do país continuaram se fortalecendo.

Na leitura de Carolina Grillo, combater organizações como PCC e Comando Vermelho exige abandonar a ideia de que existe um único “chefão” capaz de controlar toda a estrutura criminosa. Em vez disso, ela defende uma estratégia voltada para a identificação dos fluxos financeiros, das conexões entre mercados ilegais e das redes de proteção política e econômica que sustentam essas organizações.

O Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, vai ao ar todas as sextas-feiras, a partir das 6h da manhã, no YouTube e no seu tocador de podcast preferido.

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