É difícil combater desconfiança no sistema eleitoral
É difícil combater desconfiança no sistema eleitoral

Em sua coluna publicada no GLOBO, o sociólogo Pablo Ortellado lança luz sobre uma questão que ganha relevância a cada ciclo eleitoral: por que a desconfiança no sistema eleitoral parece imune às evidências e aos esforços de esclarecimento? Para o autor, a resposta está em uma combinação perversa de tecnologia, polarização e crise de legitimidade das instituições.

Ortellado argumenta que o problema não é novo, mas foi potencializado pela forma como a comunicação se fragmentou nos últimos anos. A possibilidade de cada cidadão construir sua própria realidade informacional, a partir de fontes alinhadas às suas crenças, tornou ineficazes as estratégias tradicionais de comunicação institucional.

Raízes da desconfiança

O autor aponta que a origem dessa suspeita não está exclusivamente nas notícias falsas. Ela também se alimenta da percepção de opacidade dos processos, da histórica desigualdade no acesso à informação e da descrença generalizada nas instituições — um fenômeno observado em várias democracias, inclusive nas mais consolidadas.

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Nesse contexto, as tentativas de demonstrar a segurança das urnas eletrônicas, com auditorias e testes públicos, acabam tendo alcance limitado. Isso porque, como ressalta Ortellado, a desinformação não opera no campo das evidências, mas no das emoções e das identidades políticas. Quem duvida do sistema raramente o faz por falta de dados, mas porque essas informações conflitam com um sistema de crenças preestabelecido.

A dinâmica das redes sociais

O artigo também destaca o papel das plataformas digitais como vetor de amplificação. Os algoritmos que priorizam o engajamento tendem a favorecer conteúdos extremos e acusações contundentes, que geram mais reações do que respostas moderadas. Dessa forma, uma mentira sobre uma suposta fraude pode alcançar milhões de pessoas em poucas horas, enquanto o esclarecimento oficial, por mais rápido que seja, chega a um público muito menor.

Ortellado chama a atenção para a assimetria de velocidade e alcance entre a desinformação e a comunicação oficial. Mesmo quando o Tribunal Superior Eleitoral age prontamente, as narrativas falsas já percorreram um caminho que as consolida em determinados grupos, tornando quase impossível revertê-las.

Limitações das estratégias atuais

Esforços como o reforço da verificação de fatos e a realização de campanhas educativas, na visão do sociólogo, são necessários, mas insuficientes. Eles miram o emissor ou o conteúdo, sem atacar a estrutura que permite a proliferação da desconfiança. O autor sugere que é preciso repensar a forma como as instituições se comunicam, saindo dos canais formais e ocupando os espaços onde as dúvidas são semeadas.

Além disso, ele defende que a participação de observadores independentes e da sociedade civil no processo eleitoral pode ser uma alternativa para aumentar a percepção de transparência. A presença de atores diversos, inclusive de setores críticos, poderia desarmar parte das críticas sobre a falta de controle externo.

Um problema sem solução simples

Na coluna, Ortellado é enfático ao afirmar que não há uma resposta milagrosa para o problema. A reconstrução da confiança exige um trabalho contínuo, que combine regulamentação das plataformas, educação midiática e uma postura mais proativa das autoridades na desconstrução de mitos, sem, contudo, partir para a censura, que apenas reforçaria a narrativa de que há algo a esconder.

O autor observa que a pandemia de desinformação não será resolvida por decreto, mas pela combinação de ações de curto, médio e longo prazo. Entre elas, destaca a necessidade de investir na formação de cidadãos críticos desde a escola e de criar mecanismos que responsabilizem aqueles que lucram com a disseminação de conteúdos falsos.

A desconfiança no sistema eleitoral, conclui, é um sintoma de uma crise mais ampla — de representatividade, de confiança nas instituições e de qualidade do debate público. Enquanto essa crise não for enfrentada em sua raiz, qualquer medida técnica será vista com ceticismo por uma parcela da população. E é exatamente esse o desafio que se impõe para a democracia brasileira nos próximos anos.

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