Cotada para ser vice na chapa do pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e coordenadora da agenda econômica do senador, a administradora Daniella Marques rejeita o rótulo de 'Paulo Guedes de saia', que circula nos bastidores da campanha. Ex-auxiliar do ex-ministro da Economia, ela defende o legado do governo Bolsonaro, mas evita comprometer-se com conceitos como o DDD (Desvincular, Desindexar e Desobrigar o orçamento). Daniella mostra-se mais cautelosa que Guedes ao indicar o caminho para ajustar as contas públicas: uma redução de gastos de 1,5% do PIB.
Proposta fiscal de Flávio Bolsonaro e governança orçamentária
Daniella critica o arcabouço fiscal atual, chamando-o de 'peça de ficção'. Ela defende a criação de um conselho superior de governança que envolva os três Poderes no debate orçamentário. 'Hoje, temos os três Poderes ordenando despesas e só um controlando, que é o Executivo. O Congresso e o Judiciário têm a própria pauta de expansão de gastos', afirmou. 'A boa vontade técnica, muitas vezes, não tem respaldo político. Acho que vai ter que ter um pilar de diálogo e uma instância de governança, para os quais traremos uma corresponsabilidade.'
Questionada sobre a âncora fiscal — se será teto de gastos ou de dívida —, Daniella disse que ainda não está definida. 'Estamos integrando ideias ainda. Mas necessariamente envolve algum mecanismo de controle da trajetória (de dívida), revisão dos gastos, principalmente privilégios e gastos tributários, reestruturação dos ativos da União, modernização e choque de gestão da estrutura administrativa do governo.' Ela citou um estudo indicando que uma redução de despesa de 1,5% do PIB seria suficiente para retomar a confiança e parte do ajuste viria da própria ancoragem das expectativas.
Rejeição ao rótulo e legado de Paulo Guedes
Daniella não gosta de ser chamada de 'Paulo Guedes de saia'. 'Não, não gosto. Eu sou eu, sou Dani. Os meus talentos são complementares aos dele. O Paulo é um economista visionário, e eu sou uma financista que tinha uma vocação complementar à dele.' Ela afirma que seu papel hoje é mais de execução do que de formulação. Sobre a agenda de reformas, reconhece que a pandemia comprometeu parte dela, mas defende o legado do governo Bolsonaro. 'Ainda assim, quando olho para trás, existe um legado inquestionável.' Critica o governo Lula: 'O Lula está gastando como se estivesse enfrentando uma pandemia para tentar se reeleger. É dramático.'
Cortes de gastos e programas sociais
Daniella descarta cortes em programas sociais. 'Os gastos com assistência social não chegam a um terço da despesa com juros hoje. O que precisa é um governo que tenha credibilidade e controle a trajetória da dívida.' Ela defende foco em tirar as pessoas da pobreza permanente, com menos burocracia e mais facilidade para empreender. Sobre onde os cortes seriam feitos, diz que precisará dialogar com o Congresso, mencionando 'penduricalhos, privilégios, gastos tributários, desperdício em ativos da União e 44 estatais'.
Venda de ativos da União e estatais
Daniella defende um marco regulatório de governança para os ativos da União, fortalecendo a independência dos técnicos e dando competência específica para gestão antes de pensar em privatização. 'Hoje, os ativos da União viraram um grande guarda-chuva de empregos. Tem mais de 500 assentos em conselhos remunerados. Tem aparelhamento das agências regulatórias.' Ela afirma que o estoque de dívida ativa da União passa de R$ 3 trilhões e que, com securitização, é possível obter de R$ 150 bilhões a R$ 250 bilhões para reduzir a dívida. Sobre estatais, defende modernização da gestão. 'Privatização ou não é consequência. A lógica não é necessariamente privatizar tudo.' Cita os Correios como exemplo de ineficiência: 'É um monopólio isento de imposto e consegue dar prejuízo bilionário.'
Papel da Caixa e relação com Flávio Bolsonaro
Daniella, que presidiu a Caixa, diz que o banco apoiará o pequeno empreendedor, com crédito, orientação e inclusão financeira. Sobre a defesa de Flávio de que um possível tarifaço seja implementado após as eleições, ela afirma que 'quem deveria estar fazendo essa defesa é o governo Lula'. Questionada se aceitaria ser vice, responde: 'É o Flávio que decide. Meu espírito é contribuir para o projeto sob a liderança dele.' Mesmo que o Republicanos fique neutro, ela continuará na campanha: 'O fato de eu ser filiada não me impede de exercer uma função técnica.'
Crise entre Flávio e Michelle e relação com Rogério Marinho
Sobre a crise entre Flávio e Michelle Bolsonaro, Daniella disse que 'página virada' se refere às pesquisas: 'O que a pesquisa diz é que a página está virada para o Brasil. Temos um objetivo muito maior que é resgatar o Brasil das mãos do PT.' Ela afirma ter relação 'extraordinária' com Rogério Marinho, com quem trabalhou na reforma da Previdência, e o considera 'uma liderança extraordinária'.



