Crime é mais ágil que Estado, falta integração, diz promotor
Crime é mais ágil que Estado, falta integração, diz promotor

O promotor de Justiça Lincoln Gakiya, do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), afirmou nesta quinta-feira, 23, que o crime organizado é mais ágil e mais rápido que o Estado, sobretudo pela falta de integração entre as diferentes instâncias de combate à criminalidade, como polícias e Ministérios Públicos estaduais, que não dialogam entre si. “Não falta polícia no Brasil. O que a gente tem é falta de integração e falta de cooperação”, disse Gakiya durante o evento Brasil Adiante, promovido pelo Estadão.

Sugestão de agência nacional contra o crime

Para superar essa lacuna, Gakiya propôs a criação de uma agência nacional contra o crime organizado, que seria “um órgão autônomo e independente”. Segundo ele, todas as polícias estaduais deveriam ser convidadas a integrar essa nova central, já que as facções criminosas atuam em todo o território nacional. A proposta visa centralizar informações e ações, superando a fragmentação atual.

Expansão das facções para o interior

Dados do Atlas da Violência 2025, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), mostram que a violência, antes concentrada nas capitais, espalhou-se pelo interior do país devido à atuação de facções em busca de novas rotas e mercados. Na Amazônia, por exemplo, o Comando Vermelho (CV) dobrou sua presença, passando de 128 para 286 cidades entre 2023 e 2025, segundo o estudo Cartografias da Violência na Amazônia. Já o Primeiro Comando da Capital (PCC) priorizou o controle de áreas estratégicas.

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Atuação do PCC e captura de contratos públicos

O PCC está presente em todas as regiões do Brasil, controlando territórios em pequenas e grandes cidades, atuando no tráfico de drogas e expandindo seus negócios para setores lícitos, infiltrando-se na economia formal. Investigações recentes revelam a captura de contratos com o poder público por essas facções. Gakiya, jurado de morte pelo PCC, é a maior autoridade do país no combate à facção paulista, responsável por operações como Ethos, Sharks e Fim de Linha, além de ter participado das Operações Carbono Oculto e Vérnix.

Classificação do PCC e CV como terroristas pelos EUA

Gakiya criticou a recente decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC e o CV como organizações terroristas. Para ele, a medida deve afetar a cooperação internacional no combate ao narcotráfico, favorecendo criminosos em vez de endurecer o combate ao crime. “Pode ter certeza que teremos reflexos econômicos dessa classificação”, afirmou, destacando que empresas que atuam no Brasil também serão impactadas.

Corrupção e controle interno

O promotor também abordou a relação entre corrupção e crime organizado, defendendo a reforma de controladorias e órgãos de controle de entes públicos. “Não temos no Brasil órgãos de controle que funcionam de maneira adequada. Muitas vezes, agem de maneira corporativa. Além disso, sempre agem de forma reativa”, disse.

Rejeição ao modelo Bukele

Gakiya rejeitou a adoção de uma política de segurança pública nos moldes da usada por Nayib Bukele em El Salvador, que inclui prisões sem julgamento. “Se a gente fosse seguir o modelo do Bukele, não haveria estabelecimento prisional para isso”, afirmou, classificando a abordagem como “receita certa para criar um barril de pólvora que vai explodir”. Ele reconheceu que reduziria a criminalidade, mas questionou “a que preço”.

O projeto Brasil Adiante

O Brasil Adiante é um projeto do Estadão que apresenta propostas concretas para os principais problemas do país. O ciclo de debates vai até o final de agosto, após o início da campanha eleitoral. As soluções elaboradas serão consolidadas em um documento a ser entregue em novembro ao vencedor das eleições presidenciais, com uma agenda integrada e executável para os primeiros 24 meses do próximo governo.

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