Cartas do leitor: racismo, economia e o Brasil que não cresce
Cartas: racismo, economia e o Brasil que não cresce

As cartas publicadas no Fórum dos Leitores do Estadão nesta edição trazem um retrato das inquietações brasileiras. Em tom de crítica, os leitores abordam desde o comportamento das elites até a naturalização de certas formas de racismo, passando por economia, política e inovação na saúde. O conjunto forma um painel de dezenas de reclamações e sugestões que vão da falta de projetos de soberania nacional à dificuldade de se escalar o chamado "Everest social" no país.

Espelho social: o fracasso da elite e a gratificação imediata

Uma das cartas mais contundentes é a de Mauro de Paula Freitas, de São Paulo, que comenta o artigo "O menino Ney e o Brasil que não cresce", de Gustavo Ioschpe, publicado no Estadão de 31 de julho. Freitas elogia a análise de Ioschpe por expor "brilhantemente" o que considera o fracasso da elite e da classe média brasileira, "desprovidas de ethos de responsabilidade pública, ética do trabalho ou compromisso geracional". Para ele, o "jeitinho" brasileiro, o descumprimento de prazos e a corrupção revelam a recusa em aceitar a lei impessoal.

O leitor argumenta que sociedades funcionais dependem de elevado "capital social", isto é, confiança mútua e respeito às regras compartilhadas. O Brasil, no entanto, opera na lógica do "familismo amoral" ou do "salve-se quem puder", o que deteriora a vida comunitária. Freitas vê no imediatismo econômico do governo e dos lares uma busca pelo prazer imediato, trocando o desenvolvimento sustentado de longo prazo pela gratificação instantânea. Ele também aponta que o esporte de massa e as celebridades atuam como espelhos sociais que projetam as angústias, contradições e déficits de cidadania de uma nação.

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Fala de Alexandre Silveira sobre "japoneses" é criticada como racista

O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, também virou alvo de crítica nas cartas. Ao defender tratamento isonômico entre agentes econômicos, Silveira recorreu a uma comparação que gerou repercussão negativa: os agentes deveriam ser tratados "como um caminhão de japoneses", porque seriam "todos iguais". A frase, que pretendia ilustrar imparcialidade, produziu o efeito contrário, como aponta o leitor Shigueo Kuwahara, de São Paulo.

Kuwahara explica que isonomia significa aplicar o mesmo critério a sujeitos diferentes, sem privilégio para nenhum deles. A imagem escolhida por Silveira, no entanto, apaga a individualidade de um grupo inteiro sob o rótulo racial de que "são todos iguais". Para pessoas racializadas como amarelas, a frase repete uma violência antiga: a de serem vistas não como indivíduos, mas como exemplares indistintos de um tipo racial. O leitor lembra que, ao longo do século 20, a comunidade nipo-brasileira foi tratada como massa homogênea e suspeita, e que é preciso reconhecer o quanto certas formas de racismo continuam naturalizadas no vocabulário cotidiano brasileiro, inclusive entre quem acredita estar defendendo a igualdade.

Vacinação infantil: jacaré lúdico esconde a agulha

Em meio às críticas, há também espaço para elogios. O leitor J. S. Vogel Decol, de São Paulo, enaltece a professora da Universidade de Uberaba (Uniube), Maria Angélica Hueb, por ter idealizado e patenteado um revestimento lúdico em formato de jacaré que esconde completamente a seringa e a agulha até o momento da aplicação da vacina. A notícia foi publicada no Estadão de 31 de julho, na página A28.

Segundo o relato, após receber a injeção, a criança leva o personagem para casa, onde pode acessar conteúdos educativos por meio de QR code. A expectativa é que a implantação ocorra inicialmente em clínicas de vacinação e em projetos-piloto com serviços públicos de saúde, antes de uma expansão para outras redes de imunização. O lançamento também prevê a criação de mais personagens inspirados na fauna brasileira. "Uma simples e grande ideia que traz alívio e conforto aos pequenos, merecendo aplausos de crianças e adultos. Viva!", escreve o leitor.

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Rock, tecnologia e a falta de bandas de garagem

Na área cultural, o leitor André Luiz Ferreira dos Anjos, de São Paulo, comenta a coluna da jornalista Carol Prado, intitulada "O rock voltou a ser 'cool' – a que preço?", publicada no Estadão de 31 de julho, na página C2. André Luiz observa que os jovens de hoje têm pouco interesse em montar bandas de garagem, enquanto se criam "incríveis" hits de rock com inteligência artificial. Ele também menciona o episódio de músicos que gravam sozinhos todos os instrumentos de um conjunto, graças às tecnologias acessíveis.

Esses fatores, somados às plataformas de streaming que não impulsionam ninguém, concordam com o argumento de Carol Prado. Para o leitor, o rock se perpetua de forma potente, mas de maneira esporádica, "como os morcegos que só saem à noite". A observação é uma metáfora para o fato de que o gênero continua relevante, mas sem a mesma presença orgânica de outrora.

Soberania nacional e economia: onde estão os projetos?

Na área econômica, o leitor Rafael Sales, de São Paulo, questiona as ações dos Estados Unidos na imposição de tarifas e a falta de preparo do Brasil para reagir. Ele lembra que, em 2011, a economia brasileira era a sexta maior do mundo; atualmente, ocupa a décima posição. Sales afirma não ver, em nenhum momento, a elaboração de políticas por parte dos ministros ou do governo para suprir lacunas em áreas como GPS, fertilizantes, medicamentos, peças e máquinas industriais, que poderiam ser afetadas por tarifas norte-americanas.

"Onde estão os projetos de ciência e tecnologia? Onde estão os projetos para a criação de nossas bases de lançamento de futuros satélites e para o desenvolvimento de um sistema próprio de GPS?", pergunta o leitor. Ele também indaga sobre projetos de fertilizantes próprios e sobre parcerias com outros países para reduzir a dependência dos EUA. Para ele, enquanto isso, os EUA impõem sua soberania ao mundo.

Paulo Roberto Gotaç, do Rio de Janeiro, é ainda mais cético. Ele argumenta que a equipe econômica tenta convencer a sociedade de que está no caminho certo, apesar das evidências em contrário. "Em economia, é difícil tentar um novo experimento mantendo constantes as condições de contorno – o mesmo regime presidencialista, o mesmo povo, eleitores ainda deseducados, panorama político caótico etc. – que vigoravam quando o anterior deu errado", escreve. Para ele, as consequências podem se agravar até um sério impasse, e as mazelas da economia continuarão as mesmas, qualquer que seja o resultado do próximo pleito presidencial.

Dívida pública e "herança maldita"

A leitora Tania Tavares, de São Paulo, pesquisou sobre a dívida pública do governo federal e encontrou o montante de cerca de 80% do PIB, o equivalente a R$ 10 trilhões. Ela questiona onde foi gasto todo esse dinheiro, uma vez que faltam recursos para saúde, educação e infraestrutura, mas há verba de sobra para publicidade de campanha eleitoral.

Luciana Lins, de Campinas, aborda a expressão "herança maldita" cunhada pelo PT para justificar dificuldades ao assumir o governo. Ela lembra que, depois de quatro anos de expansão dos gastos, aumento da dívida e déficits sucessivos, o partido poderá enfrentar uma situação inédita: explicar as consequências de suas próprias escolhas. "Se permanecer no poder, governará sob o peso da herança que construiu. Se perder as eleições, deixará ao sucessor uma conta difícil de administrar", escreve. Para ela, a narrativa da "herança maldita" poderá, enfim, encontrar seu verdadeiro destinatário.

Política: Alckmin, Milei e a "cena do crime"

As cartas também trazem críticas a personagens políticos. Arcangelo Sforcin Filho, de São Paulo, comenta a oficialização do PSB ao apoio de Lula e a confirmação de Geraldo Alckmin como vice na chapa à reeleição, conforme notícia do Estadão de 30 de julho, página A10. Ele ironiza que Alckmin terá a oportunidade de continuar próximo da "cena do crime". Edmar Augusto Monteiro, de Bragança Paulista, reforça: "O sr. Geraldo Alckmin continuará pisoteando a 'cena do crime'. Está cômodo ficar por ali."

Sylvio Belém, do Recife, critica o chanceler argentino por dizer que Javier Milei apoia a família Bolsonaro, mas não quer romper com o Brasil. "Fica difícil entender, depois dos insultos proferidos por ele em solo brasileiro. Assuma sua irresponsabilidade, Milei", cobra o leitor.

Everest social: mobilidade de renda é um desafio

Roberto Solano, do Rio de Janeiro, traz dados do Atlas da Mobilidade Social para mostrar como é difícil escalar o Everest social no Brasil. Segundo ele, dos que nascem entre os 25% mais pobres do país, 48% continuam na mesma faixa de renda quando chegam à vida adulta. Apenas 1,58% conclui o ensino superior. "O Brasil precisa deixar de oferecer somente auxílio de subsistência e oferecer educação. Simples assim", conclui.

Liderança mundial e o VAR

Por fim, Paulo Sergio Arisi, de Porto Alegre, clama por novas lideranças mundiais. Ele afirma que o mundo precisa urgentemente de estadistas no nível de Winston Churchill e Franklin Delano Roosevelt, com visão política adequada aos tempos de grandes avanços científicos e tecnológicos. "A era da inteligência artificial precisa de novas inteligências políticas", ressalta.

Vital Romaneli Penha, de Jacareí, aborda o uso do VAR no futebol. Ele sugere que a ferramenta deveria ser usada para aplicar cartão amarelo em disputas de espaço, pois, em quase 100% dos casos, o jogador brasileiro que tem contato com o adversário da cintura para cima simula ter sido atingido no rosto. "É muito tempo de jogo parado para uma situação que tem solução simples e fácil de aplicar", conclui.