Burnham assume PM britânico com desafios econômicos e promessas conflitantes
Burnham: novo PM britânico entre esperança e desafios

O trabalhista Andy Burnham tornou-se primeiro-ministro britânico com ativos que faltaram ao seu antecessor, Keir Starmer. Comunica-se com naturalidade, transmite empatia e está empenhado em devolver aos britânicos a impressão de que a política ainda pode oferecer um rumo. Depois de uma sucessão de primeiros-ministros incapazes de estabilizar o país, esse tipo de esperança é condição necessária para um bom governo – mas, no caso do Reino Unido, não suficiente.

Realidade econômica desafia capital político

Esse capital político enfrenta uma realidade que nenhuma mudança de estilo altera: a economia britânica continua presa ao baixo crescimento, à estagnação da produtividade, ao envelhecimento da população, ao aumento das despesas com o Estado social e a defesa e ao peso crescente da dívida pública. O país precisa voltar a investir e recuperar competitividade num ambiente internacional cada vez mais exigente. Isso não será obtido pela mera troca de liderança.

Habilidades de conciliação versus governança

Burnham pavimentou sua carreira reunindo interesses diversos, conciliando sensibilidades dentro do Partido Trabalhista e apresentando-se como voz das regiões esquecidas por Westminster. Essa habilidade lhe rendeu prestígio político. Governar o país exigirá outra qualidade. O orçamento transformará promessas compatíveis na campanha em prioridades concorrentes. Reduzir o custo de vida, fortalecer serviços públicos, ampliar investimentos, preservar compromissos sociais, elevar gastos militares e respeitar regras fiscais são objetivos legítimos. Não são, porém, automaticamente conciliáveis.

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Agenda ambígua e escolhas pendentes

Burnham ainda não explicou de forma convincente como pretende arbitrar essas escolhas. Sua agenda combina descentralização, reindustrialização, maior controle público sobre serviços essenciais e um 'Estado preventivo' voltado a evitar problemas sociais antes que se tornem mais caros. Algumas dessas ideias merecem consideração. A descentralização, em especial, pode aproximar decisões das comunidades e reduzir um centralismo excessivo que há muito prejudica o país. Mas nenhuma delas elimina a necessidade de estabelecer prioridades, conter despesas permanentes ou enfrentar interesses organizados.

Riscos de nostalgia e necessidade de inovação

A tendência simplista de atribuir as dificuldades britânicas ao thatcherismo inspira desconfiança. Houve desindustrialização, concentração regional e erros de política pública que merecem revisão, mas os trabalhistas governaram por boa parte dos últimos 30 anos. Reconstruir prosperidade exigirá respostas para desafios mais recentes: produtividade, inovação, energia, investimento e adaptação tecnológica. O futuro não será organizado com base numa leitura nostálgica do passado.

Oportunidade e risco para o novo governo

Burnham chega ao governo com um ativo político relevante: maior capacidade de mobilizar confiança e expectativas do que seu antecessor. Isso lhe oferece uma oportunidade rara de defender reformas que inevitavelmente produzirão resistências, inclusive dos próprios trabalhistas. Suas primeiras declarações revelam um político habilidoso. Ainda falta demonstrar que esse talento será acompanhado da disposição para enfrentar verdades duras e impor limites às próprias promessas. Se essa disposição não aparecer, o Reino Unido poderá descobrir que trocou um governo desgastado por outro mais carismático, sem alterar as causas profundas de sua estagnação.

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