Arroubos privatistas revelam descuido ou anacronismo na política econômica brasileira
Arroubos privatistas: descuido ou anacronismo?

A onda privatista que varre o Brasil nos últimos anos tem sido marcada por arroubos que revelam tanto descuido técnico quanto um anacronismo preocupante. Em vez de um debate maduro sobre o papel do Estado, o que se vê é uma corrida para desestatizar a qualquer custo, sem avaliar os impactos de longo prazo para a sociedade.

Pressa ideológica e falta de planejamento

Nos últimos cinco anos, o governo federal privatizou mais de 20 estatais, segundo dados do Ministério da Economia. Contudo, apenas sete desses processos foram submetidos a auditorias independentes. O economista Luiz Carlos Bresser-Pereira, ex-ministro do Planejamento, alerta: "O atual ímpeto privatista parece ignorar as lições do passado e as particularidades do setor público brasileiro. A pressa em vender empresas estatais reflete uma visão anacrônica de que o Estado é intrinsecamente ineficiente, quando na verdade muitos dos problemas vêm da má gestão e da corrupção."

Consequências para a infraestrutura e serviços

A privatização desenfreada já mostra consequências negativas. No setor elétrico, por exemplo, a venda da Eletrobras resultou em aumento de tarifas e menor investimento em linhas de transmissão em regiões remotas. Além disso, a falta de regulação adequada permitiu que empresas privadas priorizassem o lucro em detrimento da universalização do acesso. Dados do Ipea indicam que, após a privatização de distribuidoras, a qualidade do serviço piorou em pelo menos 12 estados.

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Anacronismo ideológico e perda de soberania

O anacronismo é evidente quando se compara a política brasileira com a de países desenvolvidos. Enquanto nações como Estados Unidos e Alemanha reforçam o papel do Estado em setores estratégicos, como saúde e defesa, o Brasil insiste em se desfazer de ativos que poderiam servir como instrumentos de política industrial. "Privatizar por princípio ideológico, sem uma análise setorial aprofundada, é um erro crasso", afirma o professor de economia da Unicamp, Pedro Rossi. Ele lembra que a Petrobras e o Banco do Brasil, mesmo com problemas, foram fundamentais para o desenvolvimento do país.

Descuido com o patrimônio público

Outro ponto crítico é o descuido com a avaliação dos ativos. Empresas estratégicas têm sido vendidas por valores abaixo do mercado, gerando prejuízos aos cofres públicos. Um relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) apontou que, em pelo menos três casos recentes, o preço de venda foi inferior ao valor contábil, configurando possível lesão ao erário. A ausência de transparência nos processos e a falta de participação social reforçam a percepção de que a privatização é feita às pressas, sem o devido controle.

O futuro do debate

Para que a privatização seja benéfica, é preciso que haja planejamento, regulação forte e debate democrático. O atual cenário, no entanto, aponta para o oposto: arroubos privatistas que misturam descuido técnico com uma visão anacrônica do Estado. Se não houver correção de rota, o Brasil corre o risco de repetir erros do passado, comprometendo o desenvolvimento sustentável e a soberania nacional.

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