O memorando de entendimento celebrado em junho entre Estados Unidos e Irã ainda não foi formalmente abandonado. Quase tudo o que deveria lhe dar substância, porém, se deteriorou em poucas semanas. As negociações nucleares mal saíram do lugar, os bombardeios recomeçaram e o Estreito de Ormuz, por onde passa boa parte do petróleo comercializado com o mundo, permanece longe da normalidade.
Estratégia iraniana de desgaste
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, costuma dizer que, numa negociação, tudo depende de quem tem as cartas. A evolução dos acontecimentos sugere que Teerã encontrou uma maneira de jogar justamente com aquelas de que Trump dispõe em menor quantidade: tempo, paciência política e tolerância a uma guerra prolongada.
A superioridade militar americana continua esmagadora. Os Estados Unidos destruíram radares, sistemas de defesa, depósitos, embarcações rápidas, centros de comando e instalações de mísseis e drones no Irã. Ainda assim, não conseguiram restabelecer a navegação normal no Estreito de Ormuz.
O poder do Estreito de Ormuz
O Irã não precisa dominar o estreito com uma frota comparável à americana. Basta preservar meios para que cada travessia pareça perigosa. Um ataque ocasional contra um cargueiro produz efeitos que dezenas de bombardeios não conseguem desfazer: armadores recuam, seguradoras elevam preços e capitães evitam a rota.
Teerã parece ter descoberto como lutar contra Trump. Não precisa derrotar os Estados Unidos. Basta impedir que o presidente americano obtenha uma vitória rápida, barata e politicamente crível. O conflito de baixa intensidade serve bem a esse propósito. Mantém o petróleo sob pressão, expõe os aliados do Golfo, prolonga a insegurança e empurra qualquer solução para mais perto das eleições legislativas americanas de novembro.
Cálculo político do regime iraniano
O regime calcula que pode absorver bombardeios limitados durante mais tempo do que Trump pode absorver gasolina cara, inflação, volatilidade e uma crise sem desfecho. Essa aposta é favorecida pela própria arquitetura da estratégia americana. Trump quer impedir uma arma nuclear iraniana, reabrir Ormuz, manter o petróleo barato e arrancar um acordo – tudo isso sem enviar tropas. A conta não fecha.
A força empregada até agora degradou capacidades, mas não tirou do Irã sua principal alavanca. O memorando de junho tentou completar o serviço com dinheiro: alívio de sanções, vendas de petróleo, perspectiva de investimentos e ativos liberados em troca de cooperação. Poucas semanas bastaram para mostrar os limites dessa premissa.
Mudança na liderança iraniana
A causa iraniana não cabe numa planilha de incentivos. Para a liderança que emergiu após a morte do aiatolá Ali Khamenei, Ormuz passou a representar soberania e prestígio. A Guarda Revolucionária parece ocupar espaço ainda maior no comando do regime, enquanto o aiatolá Mojtaba Khamenei permanece distante da cena pública. A teocracia adquire feições de ditadura militar nacionalista, mais disposta ao risco e menos inclinada a trocar poder estratégico por prosperidade.
Volatilidade de Trump como tática
Trump respondeu como de costume: elogiou, ameaçou, insultou, bombardeou, voltou a negociar e tornou a ameaçar. Essa volatilidade lhe rendeu vantagens em outras crises. Agora começa a cobrar um preço. Cada ultimato seguido por uma nova conversa ensina Teerã a distinguir a retórica do limite real que Washington aceita cruzar.
Derrubar o regime ou garantir militarmente Ormuz exigiria uma campanha muito maior, provavelmente com operações terrestres ou navais de alto risco. Trump não demonstra vontade de pagar esse preço, e o Irã constrói sua estratégia sobre essa relutância.
Cartas na mesa
Washington conserva cartas fortes: poder aéreo, naval, financeiro e tecnológico. Mas Teerã joga com as que pesam mais nesta rodada: o estreito, o petróleo e o calendário eleitoral americano. É uma vantagem circunstancial, não definitiva. O novo regime iraniano pode superestimar a própria margem e descobrir que a aversão de Trump a guerras longas não significa tolerância ilimitada à enrolação.
Por ora, porém, o Irã encontrou uma forma de dificultar que Trump venda uma vitória. Em conflitos de desgaste, isso pode valer tanto quanto vencer.



