Em apenas três dias, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, passou da promessa de um ataque “com muita força” contra o Irã para o anúncio de novas negociações, marcadas para segunda-feira, 3. A reviravolta, registrada entre 31 de julho e 2 de agosto, expõe o mesmo movimento pendular que marca o conflito no Oriente Médio desde 28 de fevereiro: ameaças duras, bombardeios, pausas e novos acenos diplomáticos, sem que se chegue a uma solução para o livre trânsito no Estreito de Ormuz.
Na sexta-feira, Trump afirmou que os EUA “atingiriam com muita força” o Irã. No sábado, o governo americano anunciou que havia imposto um ataque “muito duro”, mas horas depois suspendeu a operação. No domingo, o presidente voltou a falar em negociar. O ministro da Defesa iraniano respondeu que o país não está “nem surpreso nem passivo” diante do anúncio e permanece em alerta.
Uma sequência de ameaças e adiamentos
Em 21 de março, Trump usou sua plataforma Truth Social para dar um ultimato de 48 horas: se o Irã não abrisse completamente o estreito, os Estados Unidos atacariam e destruiriam suas usinas de energia, começando pela maior. O tom foi criticado porque bombardeios deliberados contra infraestrutura civil essencial são vistos como crime de guerra.
Dois dias depois, o prazo foi estendido por mais cinco, e depois suspenso por dez dias, até 6 de abril, sob a justificativa de conversas “muito boas e produtivas”. Em 5 de abril, no Domingo de Páscoa, Trump voltou a escalar o discurso: “Abram a porra do estreito, seus bastardos malucos, ou vão viver no inferno”, concluindo com “Louvado seja Alá”.
Cessar-fogo de duas semanas e trégua prolongada
Em 7 de abril, Trump publicou: “Toda uma civilização morrerá esta noite”, frase interpretada como ameaça de aniquilar o Irã, que tem cerca de 90 milhões de habitantes. Horas depois, contudo, Estados Unidos e Irã concordaram com um cessar-fogo de duas semanas. O anúncio veio menos de duas horas antes do prazo final que o próprio Trump havia dado para que Teerã capitulasse. “Aceito suspender os bombardeios e ataques ao Irã por um período de duas semanas”, disse ele.
A trégua, que deveria durar até 22 de abril, foi estendida indefinidamente por Trump no dia 21 de abril, com a justificativa de que mediadores pediram tempo para novas propostas iranianas. O acordo, porém, não resistiu: em 8 de maio, os EUA atacaram navios-tanque iranianos.
Acordos provisórios e novos bombardeios
Em 18 de maio, Trump afirmou que estava segurando um grande ataque militar por causa de “negociações sérias”. “Parece haver uma chance muito boa de que eles consigam resolver alguma coisa. Se pudermos fazer isso sem bombardeá-los até o inferno, eu ficaria muito feliz”, declarou. No dia 27, os ataques voltaram.
Em 11 de junho, uma nova ameaça: “Os Estados Unidos atacarão o Irã... MUITO DURAMENTE ESTA NOITE” e tomarão a ilha de Kharg e outras instalações petrolíferas. Cinco horas depois, o presidente cancelou tudo, citando progressos nas negociações. Em 17 de junho, ele assinou um memorando de entendimento que previa o fim permanente das hostilidades, a reabertura do estreito e um cronograma de 60 dias para um pacto final sobre o programa nuclear iraniano. “É um memorando de entendimento e, se eu não gostar, voltamos a atirar neles, a jogar bombas”, disse Trump.
O acordo provisório, porém, durou cerca de um mês. O Irã atacou instalações americanas no Oriente Médio, e Washington bombardeou defesas costeiras iranianas, pontes e outras infraestruturas.
Fim da trégua, ataques diários e nova pausa
Em 7 de julho, depois de ataques iranianos a navios comerciais no estreito, Trump lançou novos bombardeios enquanto participava da cúpula da Otan em Ancara e renovou a ameaça de “simplesmente terminar o serviço” no Irã.
Em 27 de julho, depois de 13 dias de bombardeios intensos e diários contra alvos militares e comerciais estratégicos, Trump disse ter pausado os ataques para dar mais uma chance às negociações. O Irã, por sua vez, respondeu com mísseis e drones contra países com tropas americanas no Oriente Médio.
Na sexta-feira, 31, Trump voltou a ameaçar: “Vamos atingi-los com muita força, e eles sabem que, em algum momento, vão dizer: Não aguentamos mais isso”. No dia seguinte, disse a jornalistas que os EUA atingiriam o Irã “muito duro”, mas logo depois cancelou os ataques nas redes sociais, alegando que aliados haviam chegado aos parâmetros de um acordo para encerrar a guerra. “Com base nesse pedido, concordei, para o benefício futuro do MUNDO e, igualmente, para a sobrevivência de um Irã bem-sucedido e próspero, em cancelar o ataque, desde que seja possível fechar rapidamente um ACORDO”, afirmou.
No domingo, Trump confirmou que as negociações começariam na segunda-feira, 3. “Eles obviamente não querem ser atacados. Sabiam a dimensão do ataque porque o viram sendo preparado”, disse a bordo do Air Force One. “Agora, o que estamos fazendo é conversar com eles por meio de negociações. Isso começa amanhã à tarde.”
A repetição do ciclo de ameaça, recuo e retomada evidencia a dificuldade de impor uma solução estável no Oriente Médio. Enquanto o estreito não for reaberto de forma garantida, a guerra segue elevando custos para o comércio global, a energia e, como aponta Camila Farani, o desenvolvimento da inteligência artificial, setor que depende de infraestrutura e cadeias de suprimentos estáveis.



