O presidente da Argentina, Javier Milei, voltou a atacar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva neste domingo (2) em entrevista à emissora argentina LN+. Desta vez, o ultraliberal insistiu na tese de que Lula não é inocente e questionou as anulações judiciais no âmbito da Operação Lava Jato.
"Ele é um ladrão, um corrupto. Não é inocente. Foi liberado por uma falha no processo jurídico", afirmou. A declaração ocorre em meio a um agravamento sem precedentes da relação bilateral, após uma sequência de provocações iniciada na semana passada.
No sábado anterior, Milei participou de um evento do Partido Liberal (PL) em São Paulo, ao lado do deputado federal Flávio Bolsonaro, e usou quatro adjetivos contra o petista: "ladrão", "corrupto", "presidiário" e "lixo socialista". A fala foi interpretada como ingerência na política eleitoral brasileira.
Novo capítulo da crise diplomática
O governo brasileiro não deixou passar. O Ministério das Relações Exteriores convocou o embaixador da Argentina em Brasília, Daniel Raimondi, para uma reunião formal. Simultaneamente, o Itamaraty chamou de volta para consultas o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli. A medida representa um recado claro de que as declarações de Milei cruzaram uma linha.
Em nota oficial, o Itamaraty classificou o episódio como "sem precedentes". O chanceler Mauro Vieira disse que o caso é grave, mas afirmou que o Brasil não pretende, por ora, adotar sanções mais duras, como a retirada dos representantes diplomáticos. A decisão de manter os canais abertos sinaliza que o governo Lula busca conter a crise sem romper definitivamente com Buenos Aires.
A tensão atual envolve também o histórico judicial de Lula. O presidente brasileiro teve condenações na Lava Jato anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2021, após a corte reconhecer a parcialidade do então juiz Sergio Moro. Milei, no entanto, segue contestando o processo e afirmou que a libertação de Lula se deveu a uma suposta "falha jurídica".
Além da dimensão política, a crise se dá em meio a uma forte interdependência econômica. O Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina, com um fluxo de comércio que soma dezenas de bilhões de dólares ao ano. Qualquer ruptura teria impactos severos para as cadeias produtivas, especialmente no setor automotivo, que opera com integração entre os dois países.
Lula endurece tom após ironia
Lula primeiro respondeu com indiferença. Ao ser perguntado por jornalistas, devolveu com ironia: "Quem é esse cara?" Dias depois, mudou o tom e chamou de "palhaçada" a presença de Milei no ato do PL. Durante um evento do PSB, o presidente brasileiro discursou contra a interferência estrangeira no país.
"Vocês viram o disparate que veio fazer o presidente da Argentina. Mas eu amo a Argentina e isso não vai mudar por causa dessa coisa. Enquanto eu for presidente, ninguém de fora vai interferir nas eleições", afirmou Lula, em um claro recado a Milei. A fala reforçou a posição de que a crise não abalará os laços históricos com o país vizinho, mas que a soberania brasileira será defendida.
Milei dobra a aposta e se defende
Na entrevista deste domingo, Milei não apenas repetiu as acusações como tentou justificá-las. Para ele, suas palavras não são agressivas; agressivo seria o ato de roubar. "É muito mais leve chamar um ladrão de ladrão do que o próprio ato de roubar", disse. Ele também negou que as ofensas tenham sido planejadas, chamando-as de "espontâneas".
A troca de farpas entre os dois líderes expõe um abismo ideológico. Enquanto Lula defende a integração regional e o fortalecimento do Mercosul, Milei adota um discurso anti-establishment e critica o que classifica como "esquerdismo". Analistas veem a crise como um teste para a política externa brasileira, que historicamente dependeu de boas relações com a Argentina, seu principal parceiro no bloco.
O episódio também mobiliza a oposição brasileira. A participação de Milei no evento do PL foi vista como um apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. Para o governo, isso caracteriza uma interferência externa no processo eleitoral, o que eleva ainda mais o tom da crise.



