Acordo com Irã divide opiniões e gera ceticismo
Acordo com Irã divide opiniões e gera ceticismo

“Que acordo podre fizemos com o Irã”, disse, em uma postagem nas redes sociais, Donald Trump. “Não ganhamos nada (exceto risos à nossa estupidez). Eles levam tudo, incluindo tempo e muita grana!” Isso foi em 2013. Mas bem poderia ser em 2026 – com algumas ressalvas.

O acordo de 2026 não é uma reedição mecânica do JCPOA celebrado por Barack Obama. O programa nuclear iraniano sofreu danos significativos. Instalações foram destruídas, a capacidade militar do regime foi degradada e o custo econômico do conflito foi elevado. Ainda assim, basta examinar os termos do memorando de entendimento divulgados para compreender por que o entusiasmo da Casa Branca encontra tantos céticos.

Uma pausa necessária no Oriente Médio

O Oriente Médio precisava de uma pausa. O Estreito de Ormuz responde por parcela vital do comércio global de energia. Sua interrupção produziu meses de turbulência econômica, volatilidade nos mercados e incerteza estratégica. Sob esse aspecto, a retomada da navegação é ótima notícia. O problema é que a abertura de Ormuz parece ser a única questão resolvida. Quase tudo o que justificou a guerra foi empurrado para negociações futuras.

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Termos vagos e promessas antigas

O memorando reafirma que o Irã não buscará armas nucleares. O regime faz a mesma promessa há décadas. O destino de seu estoque de urânio enriquecido continua indefinido. O enriquecimento permanece sujeito a negociação. O programa de mísseis balísticos ficou fora do acordo. O financiamento de grupos armados como Hezbollah e os houthis foi remetido a discussões posteriores. Enquanto isso, Washington se compromete a flexibilizar sanções, liberar ativos congelados e apoiar um plano de reconstrução econômica estimado em centenas de bilhões de dólares.

Os defensores do acordo respondem que essa é justamente sua lógica. O governo Trump aposta que o regime finalmente escolheu prosperidade em vez de confronto. Se o Irã tiver acesso a investimentos, comércio e integração econômica, passará a enxergar menos vantagens na confrontação permanente com os EUA e seus aliados. Só falta combinar com os aiatolás.

Lições do passado

Desde 1979, sucessivos presidentes americanos imaginaram que incentivos econômicos poderiam moderar o comportamento da República Islâmica. Mudaram os métodos, mudaram os negociadores e mudaram os ocupantes da Casa Branca. O resultado foi invariavelmente o mesmo: Teerã aceitou benefícios quando disponíveis, preservou seus instrumentos de coerção e continuou tratando a exportação da revolução islâmica como elemento central de sua identidade estratégica.

Henry Kissinger observou certa vez que o Irã precisava decidir se queria ser “uma nação ou uma causa”. Ao longo de quase meio século, a resposta sempre foi a mesma.

Uma aposta arriscada

É isso que torna o acordo uma aposta tão arriscada. Seus incentivos são concretos. Suas contrapartidas permanecem vagas. O dinheiro chegará antes que as questões mais difíceis sejam resolvidas. As sanções começam a ser afrouxadas antes que exista um entendimento definitivo sobre o programa nuclear. O mecanismo de fiscalização ainda precisa ser negociado. E o próprio memorando admite que os temas centrais serão discutidos ao longo dos próximos 60 dias – prazo que muitos veteranos das negociações nucleares consideram manifestamente insuficiente.

A guerra tampouco produziu a estabilidade que seus defensores prometiam. Israel observa com ansiedade a perspectiva de um Irã financeiramente revitalizado. Os países árabes do Golfo descobriram o custo de depender de uma rota marítima vulnerável. O Estreito de Ormuz, que antes da guerra funcionava como uma artéria comercial global, tornou-se instrumento explícito de chantagem política. E a disposição americana de sustentar uma campanha prolongada parece menor do que amigos e adversários imaginavam.

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A alternativa ao acordo era a continuação da guerra, com riscos econômicos e militares potencialmente maiores. A diplomacia merece uma chance. A paz merece ser testada. O problema é que o acordo foi construído sobre uma esperança que sucessivos presidentes americanos já testaram antes. Seu sucesso depende menos do que Washington está disposto a oferecer do que daquilo que Teerã estaria disposto a abandonar. E essa continua sendo a parte mais difícil de acreditar.