Há algumas semanas, o autor percorreu a pé os 230 quilômetros de Leon até Santiago de Compostela, na Espanha, em dez dias, caminhando cerca de dez horas por dia. A trilha, utilizada por peregrinos desde o ano 800, é de dificuldade moderada, apesar da extensão, e atravessa montanhas, florestas, campos de girassóis e lavanda, com abundância de flores e árvores centenárias. Bem sinalizada, o percurso permite que o caminhante nunca se perca e encontre locais para descanso e hidratação.
O prazer da imersão na paisagem natural
Essas características propiciam um andar relaxado, onde a mente corre solta de forma diferente do devaneio sentado em uma cadeira. É uma imersão completa na paisagem natural, cujo prazer aumenta ao longo dos dias, distanciando gradativamente o andarilho da vida urbana. Longas caminhadas fizeram parte do modo de vida dos ancestrais humanos até o surgimento das vilas e cidades, quando se perdeu o contato direto com a natureza.
Caminhar está no passado distante da espécie. Os hominídeos existiam há 2 milhões de anos, e o Homo sapiens surgiu há apenas 250 mil anos. Durante mais de 99% da história biológica humana, vivemos vagando em busca de comida e caça, totalmente envolvidos pela natureza. Foi somente nos últimos 15 mil anos, com o advento da agricultura, que paramos de andar e nos fixamos nas cidades.
Biofilia: a afinidade inata com a vida
Biofilia é o termo cunhado por cientistas para descrever a relação de afinidade com os seres vivos e o desejo de harmonia com o ecossistema. Grande parte dos cientistas acredita que a biofilia faz parte da herança genética, pois apenas os possuidores dessas características teriam sobrevivido por milhões de anos. Em todas as culturas, o ser humano gosta de ambientes com horizontes amplos, aprecia o contraste do azul do céu com o verde das matas e se maravilha com um pôr do sol. Não se conhece sociedade que não ache as flores bonitas.
Um exemplo da biofilia inata é a preferência por locais de habitação. Nossos ancestrais habitavam cavernas em encostas de montanhas, com retaguarda protegida e vista para um vale com lago ou rio, árvores frutíferas e animais. Essa paisagem é observada nas cavernas onde são encontrados ossos ancestrais. Hoje, quem tem meios financeiros busca essas mesmas paisagens para construir casas de campo; os outros disputam uma vista para um parque ou um pedaço de horizonte nas cidades. Quando nada disso é possível, satisfazem-se com uma árvore na calçada ou um vaso na janela.
A opressão da biofilia nas cidades
A biofilia, com a migração para as cidades, sofreu violenta opressão. Foi proibida e reprimida, e hoje poucos percebem o quanto realmente são biófilos. Esse desprezo pelos outros seres vivos permite a destruição dos ecossistemas e o descaso com a extinção da biodiversidade. A substituição da biofilia por valores como progresso e riqueza a qualquer custo coloca a sobrevivência da humanidade em risco.
Ao longo dos quilômetros percorridos, o autor imaginou que a restauração da biofilia é uma das poucas chances de reverter a separação da natureza e a consequente degradação consentida do meio ambiente. Se todos os seres humanos pudessem caminhar diariamente por uma hora no mundo natural, como faziam os ancestrais, é possível que a biofilia ressurja e melhore o mundo. Reservas e parques são os instrumentos para reviver a biofilia. Que todos possam ter como dever caminhar em meio ao ambiente ancestral. A volta da biofilia talvez salve a humanidade.
Mais informações: E. O. Wilson, Biophilia. Harvard University Press, 2009.



