Aquecimento global confunde plantas e adianta brotamento em 2 semanas
Aquecimento global confunde plantas e adianta brotamento

Com o aquecimento global, as plantas estão começando a sofrer uma espécie de dissonância cognitiva. Nas florestas temperadas, as plantas têm um ciclo de vida bem regrado, chamado ciclo fenológico, regulado por dois fatores ambientais: a duração do dia e a temperatura. O aquecimento global está deixando as plantas confusas, porque as temperaturas estão aumentando mais cedo na primavera, ficam mais altas no verão e demoram mais para baixar no outono, enquanto a duração do dia permanece inalterada.

O ciclo fenológico e os sensores das plantas

No fim do inverno e início da primavera, as plantas brotam e iniciam seu ciclo de crescimento e reprodução. Novas folhas surgem, galhos crescem, troncos se tornam mais grossos. Logo em seguida, surgem as flores e sementes são produzidas. Com o início do outono, as folhas se tornam amarelas, depois secam e caem, e a planta reduz seu metabolismo para enfrentar o inverno.

Esse ciclo é regulado pela duração do dia (que no inverno é curta e se alonga até o solstício de verão) e pela temperatura (baixa no inverno, alta no verão). O aquecimento global altera a temperatura, mas não a duração do dia, causando a dissonância cognitiva: os sensores de temperatura indicam primavera, mas os dias ainda são curtos.

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Brotamento adiantado em duas semanas

Estudo publicado na Science (DOI: 10.1126/science.adf5098, 2023) usou satélites para medir, ao longo de décadas, a data de surgimento das folhas verdes na primavera e a mudança de cor no outono, associados a medidas de temperatura e experimentos em estufas. Os resultados mostram que em todas as florestas subtropicais do Hemisfério Norte o aumento da temperatura provocou um adiantamento no brotamento das árvores, que agora ocorre mais cedo e com menos luz em 84% da área. Esse adiantamento corresponde a 1,9 dias para cada grau Celsius de aumento da temperatura.

Ou seja, a primavera, medida como o momento em que os brotos aparecem, tem ocorrido mais cedo, como se as árvores estivessem se guiando mais pela temperatura do que pela duração do dia.

Outono também se altera: folhas morrem mais cedo

No outono, ocorre o contrário. Com o aumento da temperatura, as árvores estão iniciando o período de senescência e perda das folhas mais cedo. Apesar da temperatura mais alta e dos dias ainda longos, as folhas morrem mais cedo, com adiantamento de 2,6 dias por grau Celsius. Além de iniciar mais cedo, o processo de decadência das folhas se alonga, ocorrendo mais lentamente. Os pesquisadores afirmam que as razões para esse comportamento ainda precisam ser investigadas.

Impactos no crescimento e no clima

A questão ainda em aberto é o quanto essas mudanças afetam o crescimento anual das plantas. Intuitivamente, por iniciarem o crescimento mais cedo, as plantas deveriam fixar mais gás carbônico por meio da fotossíntese e, portanto, crescer mais. Mas como iniciam o processo de perda das folhas mais cedo, e ele é mais lento, é difícil calcular o resultado final.

Entender esse balanço é importante, pois se as árvores fixam mais carbono com o aumento da temperatura, podem contribuir para uma redução da velocidade do aquecimento global. Caso contrário, podem estar acelerando as mudanças climáticas ao reduzirem sua capacidade de fixação de gás carbônico.

Consequências desconhecidas

O que esse estudo mostra, sem sombra de dúvida, é que o aquecimento global está forçando uma mudança no comportamento das plantas. Essa mudança vai afetar a produtividade das florestas em direção ainda desconhecida. Também é desconhecido o efeito do aumento de temperatura na saúde e longevidade das florestas. Ou seja, estamos alterando o clima do planeta, provocando uma confusão no comportamento das florestas, e o resultado das mudanças ainda é desconhecido. Quanto mais aprendemos sobre os efeitos das mudanças climáticas, mais claro fica o quanto estamos dando um salto no escuro e desconhecendo os riscos que corremos.

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