O petróleo Brent fechou em alta de 5,2%, a US$ 78,02, e o WTI subiu 4,4%, para US$ 73,52, nesta quarta-feira (8), após novas declarações do presidente dos EUA, Donald Trump, que prometeu medidas contra o Irã. A escalada do conflito reacendeu o temor de interrupção no fornecimento global e levou analistas a projetarem o Brent na faixa de US$ 80 a US$ 90, caso o Estreito de Ormuz seja ameaçado.
Declarações de Trump impulsionam alta
Durante a sessão, os preços chegaram a disparar mais de 8% no Brent e 7,5% no WTI. Trump afirmou que seu governo pode tomar “algumas medidas” capazes de pressionar ainda mais a commodity. “Os preços do petróleo podem subir um pouquinho”, disse o republicano, acrescentando que, sempre que os EUA atingem o Irã, o barril reage em alta. Mais cedo, Trump também prometeu novos ataques contra Teerã ainda naquela noite, ampliando a percepção de risco.
Analistas veem espaço para US$ 90
Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, afirma que o Brent poderia buscar a faixa de US$ 80 a US$ 90 se a tensão no Oriente Médio ameaçar a oferta global ou o fluxo pelo Estreito de Ormuz. Por outro lado, se não houver interrupção concreta de produção ou transporte, parte do prêmio de risco pode ser devolvida. “O barril ainda pode subir se a tensão no Oriente Médio ameaçar a oferta global ou o fluxo pelo Estreito de Ormuz. Nesse cenário, o Brent poderia buscar a faixa de US$ 80 a US$ 90”, diz Araújo.
Gustavo Assis, CEO da Asset, também vê espaço para novas altas, mas afirma que o mercado precisa separar o prêmio geopolítico de um choque físico de oferta. Segundo ele, na faixa atual, parte do risco já foi incorporada aos preços. “Se o conflito ficar restrito a ataques pontuais e sem interrupção relevante no fluxo do Estreito de Ormuz, o Brent pode testar a região de US$ 80 a US$ 85, mas tende a perder força depois. Já em um cenário de bloqueio parcial, ataque a infraestrutura petrolífera ou restrição concreta à navegação, o mercado pode mudar de patamar e trabalhar com petróleo entre US$ 90 e US$ 100, com impacto direto sobre inflação, câmbio e Bolsa”, afirma.
Ormuz como principal risco
André Matos, CEO da MA7 Negócios, vê Ormuz como o principal risco para uma nova rodada de alta. Segundo ele, a oferta segue abundante, com a OPEP+ elevando a produção, o que tende a limitar o avanço do petróleo caso o conflito não escale. O risco muda de dimensão, porém, se o estreito for ameaçado de fato. “Por ora, bancos trabalham com o Brent perto de US$ 75 no curto prazo, mas a palavra que define esse mercado é volatilidade”, afirma Matos.
O Estreito de Ormuz é considerado o principal divisor de cenários porque por ali passa cerca de um quinto do petróleo comercializado no mundo. Qualquer ameaça concreta à circulação de navios pode alterar rapidamente o equilíbrio entre oferta e demanda. Peterson Rizzo, Head de Relações com Investidores da Multiplike, afirma que o episódio atual se diferencia de uma tensão passageira porque reúne duas frentes: o risco sobre Ormuz e a volta das sanções americanas ao petróleo iraniano. “O preço atual reflete o risco da escalada, não uma interrupção efetiva da passagem pelo estreito, então ainda há espaço para nova pressão caso o fluxo seja de fato afetado”, afirma.
Análise técnica aponta resistências
Pela análise técnica, o Brent voltou a se aproximar de uma região decisiva. Segundo o analista técnico Rodrigo Paz, o contrato apresentou forte volatilidade nas últimas semanas. No início do ano, era negociado próximo de US$ 60,00, mas uma intensa entrada de compradores impulsionou o ativo até a máxima do ano, em US$ 119,50. Após atingir esse patamar, o petróleo iniciou um movimento corretivo e atualmente voltou a negociar próximo da faixa dos US$ 80,00. Pelo gráfico semanal, o IFR (14) está em 45,96, em região neutra.
Para Paz, o momento agora é de confirmação. “Será fundamental acompanhar se esse movimento representa apenas um repique técnico após as quedas recentes ou o início de uma recuperação mais duradoura. O ativo ainda negocia abaixo das médias móveis, e somente um rompimento dessa região poderá devolver maior força compradora e abrir espaço para buscar patamares mais elevados”, afirma. As principais resistências estão em US$ 85,95, US$ 99,00, US$ 114,70, US$ 119,50 e US$ 125,15. Já no cenário negativo, a região dos US$ 70,00 segue como principal suporte de curto e médio prazo. “Caso esse nível seja perdido, o petróleo poderá retomar o movimento de baixa e acelerar as perdas em direção aos próximos suportes”, diz Paz.
Risco geopolítico parcialmente precificado
Apesar da alta forte, fontes avaliam que o mercado ainda trabalha com uma diferença importante entre risco e interrupção real. Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco, afirma que os novos ataques e o restabelecimento das sanções econômicas contra o Irã provocaram uma reação imediata no petróleo. Para ele, o mercado já incorporou parte do prêmio geopolítico, mas ainda não precificou completamente um cenário de restrição física de oferta ou interrupção relevante nas rotas de exportação da região.
André Luiz Haas Caruso, CEO da Pilar Capital, também avalia que o risco geopolítico está parcialmente incorporado aos preços. Ainda assim, diz ele, existe espaço para nova pressão caso ataques atinjam instalações petrolíferas ou dificultem a passagem pelo Estreito de Ormuz. Para Fábio Murad, sócio e fundador da Ipê Avaliações, a sustentação da alta dependerá da transformação do risco em problema real de oferta. “Se o conflito entre Estados Unidos e Irã se limitar a ruído diplomático e militar controlado, a alta pode ser devolvida. Se houver risco real de oferta, o movimento ganha sustentação”, afirma.
Com isso, a resposta para a pergunta sobre o petróleo a US$ 90 depende de dois gatilhos combinados: a confirmação técnica de força acima das médias móveis e a evolução do risco geopolítico em Ormuz. Enquanto o estreito permanecer como risco no radar, o Brent tende a operar com volatilidade elevada. Se houver interrupção efetiva no fluxo de petróleo pelo Golfo Pérsico, o mercado pode rapidamente buscar novos patamares para o barril.



