A intensa onda de calor que atingiu a Europa no fim de junho mudou a rotina de milhões de pessoas. Uma família de Araçoiaba da Serra (SP) que vive no norte da Itália relatou como as altas temperaturas afetaram seu bem-estar em um dos episódios de calor extremo mais abrangentes já registrados no continente. Na Itália, as temperaturas médias diárias superam os 36°C, os termômetros ultrapassam facilmente os 40°C em várias regiões e picos já chegaram a 39,2°C.
Alerta vermelho em cidades italianas
Cidades famosas como Roma, Milão e Veneza decretaram alerta vermelho devido ao perigo do calor extremo. Manoela Rivas, moradora de Araçoiaba da Serra (SP), acompanha de perto os efeitos das altas temperaturas durante as férias na casa dos pais em Modena, no norte do país. Ao g1, ela relatou que alterou completamente a rotina da família e também o comportamento dos moradores da cidade. "Sentimos uma mudança em nossas vidas e na nossa rotina, por conta do calor que está fazendo aqui. A frase 'Nossa, está muito calor, estou começando a me sentir mal' está diariamente e constantemente presente, todos os dias", relatou.
Pai idoso sofre mais com o calor
A araçoiabana, que costuma frequentar o país europeu durante as férias para visitar os familiares, contou que o pai é quem mais sofre com o calor e praticamente não consegue permanecer em casa sem ar-condicionado. "Meu pai praticamente não sai muito de casa, ele tem 64 anos e, de nós três, com certeza é o que mais sofre com o calor. Ele não consegue mais ficar sem ar condicionado e passa mal quando ele está desligado. Minha mãe, com seus 62 anos, já sai mais do que ele, vai ao mercado e também sai para caminhar e correr no parque, mas tem dias que ela desiste por conta do calor exacerbado", afirmou.
Onda de calor histórica
A Europa passou por uma onda de calor histórica na segunda quinzena de junho, em meio ao início do verão no hemisfério norte, que elevou as temperaturas a níveis extremos e causou recordes históricos em diversos países, como a Itália. A onda de calor começou no oeste do continente e rumou a leste, registrando recordes históricos por onde passou. Segundo levantamento da agência AFP, considerando o período entre 15 e 30 de junho e cruzando registros diários de temperatura máxima do Observatório Europeu da Seca com dados populacionais do Centro Comum de Pesquisa da União Europeia, além da Itália, França, Bélgica e Holanda registraram 3.700 mortes a mais durante a onda de calor extremo.
Alterações na rotina diária
Por conta das altas temperaturas, Manoela destacou que precisou adaptar os horários para atividades ao ar livre. "É praticamente impossível sair antes das 17h para correr. Sempre vou por volta das 19h, quando ainda faz entre 33°C e 35°C, mas já existem mais áreas de sombra. Antes disso, a exaustão é muito grande", disse. Tarefas simples do dia a dia passaram a ser realizadas apenas no fim da tarde ou à noite. As compras são deixadas para os horários mais amenos e até a alimentação mudou. "Sempre deixamos para ir ao mercado o mais tarde possível. Quando saímos, normalmente é no início da 'noite', que aqui ainda está sol, mas é mais fresco. Quando saímos para almoçar, por exemplo, sempre comemos dentro do lugar, junto com todas as outras pessoas. Se o lugar tem área interna, todas as pessoas almoçam na área interna, não tem uma pessoa que fique para fora no calor", contou.
Mudanças na alimentação e cobertores especiais
"Outra coisa que mudou em nossa rotina foi a alimentação. Sem perceber, acabamos postergando todas as nossas refeições, pois não sentimos muita fome durante o dia. Começo a sentir fome quando o sol se põe e o tempo fica mais 'refrescante'. Fora isso, percebo que preciso comer quando começo a passar mal ou me regro a comer mesmo sem fome", destacou. Segundo ela, a família também precisou comprar cobertores próprios para o verão, já que, mesmo com o ar-condicionado ligado, a sensação de calor persistia durante a noite.
Itália no ritmo noturno
A mudança de comportamento também é percebida entre os moradores da região. Segundo a família, os parques, ruas e centros comerciais permanecem praticamente vazios durante a tarde e só voltam a receber movimento quando o calor diminui. "No parque, às 16h ou 17h praticamente não tem ninguém, quem está lá fica sentado na sombra. Depois das 18h30 ou 19h as pessoas começam a chegar, fazer piquenique, os meninos começam a jogar bola, vôlei, as crianças enchem bexigas com água para se refrescarem e quem corre começa a se exercitar. Antes disso é raríssimo ver alguém praticando atividade física ou crianças brincando. O mais comum é ver a terceira idade jogando baralho na sombra", destacou Manoela. Ela afirma que percebeu o mesmo cenário no centro histórico de Modena. "Hoje fui ao centro por volta das 15h e estava muito vazio. Quando começou a ficar perto das 19h, as ruas estavam cheias e as lojas movimentadas", diz.
'Parece que estamos dentro de um forno'
Apesar de visitar a Itália todos os anos, Manoela diz que este é o verão mais intenso que já enfrentou no país. "Meus pais moram aqui e todos nós achamos que este está sendo o pior verão que já passamos. A sensação é igual a de estar em um forno mesmo, tem que andar com garrafa de água e passar protetor, se não acaba sendo perigoso mesmo", afirma. Ela destaca que o calor europeu é diferente do registrado no interior paulista. "Comparado ao calor de São Paulo, aqui é um calor extremamente abafado. Parece que incendeia, mesmo dentro de casa. Às vezes o ar-condicionado não dá conta. Isso me fez questionar se o ar-condicionado não deixou de ser um luxo para se tornar uma necessidade", completa.
Pele também sofre com as altas temperaturas
De acordo com o dermatologista Cassiano Tamura, coordenador da residência médica em Dermatologia da PUC-SP, o problema vai muito além do desconforto. "As ondas de calor representam um risco importante para todo o organismo. Na Europa existe um agravante: muitas cidades e residências foram construídas para enfrentar o frio, não o calor extremo, o que aumenta a exposição da população", explicou. O especialista explicou que outro fator preocupante é que as noites continuam quentes, impedindo que o organismo se recupere do calor acumulado durante o dia. "Isso aumenta o risco de desidratação, exaustão pelo calor e insolação, principalmente entre idosos, crianças, gestantes e pessoas com doenças crônicas", contou.
Riscos para a pele
Além dos riscos ao organismo, Tamura alertou que a pele está entre os órgãos mais afetados durante períodos prolongados de calor. "O calor excessivo favorece queimaduras solares, brotoejas, desidratação da pele e piora doenças como rosácea, melasma e acne. A exposição acumulada à radiação ultravioleta também acelera o envelhecimento da pele e aumenta significativamente o risco de câncer", afirma Cassiano. De acordo com o dermatologista, a combinação entre calor intenso, radiação solar e baixa umidade compromete a barreira natural de proteção da pele, tornando-a mais sensível e suscetível a irritações e infecções.
Como se proteger
Cassiano Tamura alertou que, diante das ondas de calor cada vez mais frequentes, a proteção contra o sol precisa fazer parte da rotina. "Precisamos abandonar a ideia de que protetor solar é um cuidado apenas para praia ou piscina. A fotoproteção diária passa a ser uma medida de saúde pública", alerta. O especialista recomenda evitar exposição ao sol entre 10h e 16h, manter boa hidratação, utilizar protetor solar com reaplicação a cada duas horas, roupas com proteção UV, chapéus, óculos de sol e priorizar atividades ao ar livre no início da manhã ou no fim da tarde. Segundo ele, esses cuidados ajudam a prevenir queimaduras, insolação, envelhecimento precoce da pele e câncer de pele.



