A paisagem bucólica e o legado cultural da Itália há muito inspiram a criatividade, e com as grandes ambições do século 20, alguns artistas levaram essa inspiração a proporções monumentais. Criaram terras metafísicas de contos de fadas nas florestas; enterraram uma cidade inteira em concreto; e até escavaram uma montanha. Uma visita a esses mundos inventivos abre as portas para o fantástico e oferece o que muitos viajantes mais desejam: a oportunidade de se inspirar ou, pelo menos, de se maravilhar.
Gibellina, Sicília: Cretto di Burri
Em meio às colinas agrícolas do interior norte da Sicília, surge repentinamente o Cretto di Burri: uma extensa área de concreto claro com um labirinto de caminhos gravados. É uma das maiores obras de land art do mundo. Burri imaginou como um sudário de concreto para cobrir os destroços do terremoto. Sob o concreto jazem os escombros das casas de Gibellina, uma pobre vila agrícola arrasada por um terremoto em 1968. Seus moradores foram reassentados a 19 km de distância, numa nova cidade chamada Gibellina Nuova. Ludovico Corrao, o visionário prefeito da antiga Gibellina, convidou artistas e arquitetos para idealizar essa cidade intocada pelo terremoto como um museu a céu aberto, e para conceber sua praça, sua igreja, seu teatro e sua arte pública como obras de arte contemporâneas inovadoras. Grandes talentos de toda a Itália contribuíram com suas criações, incluindo Carla Accardi, Arnaldo Pomodoro, Mimmo Paladino, Pietro Consagra, Mario Schifano e Daniel Spoerri. Alberto Burri, um dos artistas italianos mais renomados do século 20, foi o único que decidiu trabalhar não na cidade nova, mas em meio aos escombros da antiga Gibellina. Ele concebeu uma escultura de 8,5 hectares – uma espécie de sudário de concreto para cobrir os destroços do terremoto – que espelhava suas obras características da série Cretti, com tinta craquelada sobre tela. Em Gibellina, ele despejou cimento para criar uma grade de blocos irregulares da altura de uma pessoa. É, como ele escreveu, “uma lembrança permanente deste evento”. Hoje, visitantes, incluindo moradores de Gibellina com saudades de casa e, ocasionalmente, um rebanho de ovelhas, percorrem as ruelas espetaculares criadas por Burri. Os críticos argumentam que o abrangente projeto Gibellina Nuova, que nunca foi totalmente concluído, tratou os moradores deslocados como uma reflexão tardia, oferecendo pouca sombra, espaço público ou terras agrícolas. Acusações de apropriação indevida e desvio de fundos agravaram a frustração com as obras inacabadas. Muitas obras de arte que necessitam de manutenção, como o Cretto di Burri, foram negligenciadas. Gibellina é agora a primeira capital italiana da arte contemporânea, com planos para novas obras, exposições e residências para artistas como Michelangelo Pistoletto, Anish Kapoor e outros. “Quem, senão os artistas, pode nos guiar para fora das ruínas em que vivemos hoje?”, disse Andrea Cusumano, diretor artístico das atividades deste ano. Há esperança de que a ocasião também impulsione a restauração dos tesouros da cidade e a transforme, como Corrao idealizou, em um destino cultural. Entrada gratuita.
Vidracco, Piemonte: Templos da Humanidade de Damanhur
Ao pé dos Alpes, encontram-se alguns dos maiores templos subterrâneos do mundo. Foram escavados em segredo por uma comunidade espiritual heterogênea chamada Damanhur, formada em 1979 e batizada em homenagem a uma cidade egípcia. A comunidade cresceu e se tornou uma ecovila autossuficiente – com uma população de 600 habitantes – administrada com sua própria moeda, governo e doutrinas alternativas que incluem magia, viagens no tempo e Atlântida. As câmaras escavadas pela comunidade, conhecidas como Templos da Humanidade, estão entre as maravilhas modernas mais curiosas da Itália. Em um local que seu fundador acreditava ser um “rio de energia”, o equivalente a três quarteirões de Manhattan foi perfurado manualmente para dar lugar a cerca de 20 andares de catedrais rupestres. O grupo cobriu as paredes com mosaicos em estilo bizantino, vitrais e murais de damanhurianos brincando no Éden, vestindo togas como os antigos romanos, ou em toda a sua majestade nua. Pinturas retratam divindades e lendas do mundo – Hércules, o deus mesoamericano Quetzalcoatl, Aladim, a deusa hindu Kali e inúmeras outras. Há oito templos no total, incluindo uma pirâmide imponente revestida de espelhos do topo à base. A experiência de vida em grupo em Damanhur já dura mais tempo do que muitas comunas. Independentemente de as crenças esotéricas parecerem intrigantes ou extravagantes, é revigorante visitar um lugar tão distante do mundo rancoroso de hoje. Passeios a partir de € 55 (cerca de R$ 325).
Capalbio, Toscana: O Jardim do Tarô
Na região da Maremma, monstros e criaturas míticas erguem-se a vários metros de altura dos olivais, todos revestidos por um delirante arco-íris de mosaicos. Este é o Jardim do Tarô, a monumental obra-prima da artista francesa Niki de Saint Phalle, um empreendimento que levou duas décadas para ser concluído. Ela contou com a colaboração de outros artistas e moradores locais, que ajudaram a revestir as estruturas das esculturas com azulejos de mosaico. A artista abriu seu parque ao público em 1998 e faleceu alguns anos depois, em 2002. Contudo, o magnetismo do Jardim do Tarô só aumentou, acompanhado por uma crescente admiração pelas criações feministas e fantasmagóricas de Saint Phalle. O parque de 5,7 hectares, construído sobre ruínas etruscas, está repleto de gigantescas estátuas, incluindo um anjo da morte a cavalo, um demônio hermafrodita com três pênis de ouro, uma serpente de muitas cabeças e um pássaro-do-sol coroado com raios dourados. Há também uma esfinge – toda a sua superfície interna incrustada com fragmentos de mosaico espelhado – tão colossal que Saint Phalle viveu dentro dela por anos, com seus aposentos num de seus seios gigantescos. Este “jardim da alegria”, como Saint Phalle chamava o parque de esculturas, retrata as 22 figuras dos arcanos maiores de um baralho de tarô, representadas pelas figuras sinuosas e jubilantes da artista. A ideia surgiu em um sonho quando ela estava internada em um asilo na juventude, e se consolidou com uma visita ao Sacro Bosco, na cidade italiana de Bomarzo. Um parque de esculturas que data de 1552 e foi construído pelo soldado, aristocrata e poeta Pier Francesco Orsini, cujas maravilhas pagãs povoam a floresta a uma hora do Jardim do Tarô. Em uma carta a uma amiga, Saint Phalle se propôs a mostrar que uma mulher também podia criar obras em uma escala tão imensa. “Os papéis dos homens parecem lhes dar muito mais liberdade”, escreveu ela, “e eu havia decidido que essa liberdade seria minha.” Aberto até 15 de outubro; ingressos a € 15 (em torno de R$ 90).
Montegabbione, Úmbria: La Scarzuola
Um mundo onírico construído com arquitetura improvável, La Scarzuola transborda símbolos familiares condensados em um quadro enigmático do tamanho de uma praça. Monumentos em miniatura de tufo calcário agrupam-se – o Partenon, o Coliseu, o Templo de Vesta –, com uma representação em espiral da Torre de Babel e inúmeras escadarias que não levam a lugar nenhum, como uma gravura de M.C. Escher tornada real. Um anfiteatro gramado abriga um palco com padrão labiríntico, um olho gigante vigilante e uma cabeça de ogro cuspindo fogo. Motivos dourados – estrelas, sóis, abelhas, rostos humanos, uma ampulheta alada – pendem em nichos como pistas metafóricas. Esse capricho enigmático foi criação do arquiteto Tomaso Buzzi, que, em 1957, comprou La Scarzuola, um convento fundado por São Francisco de Assis em 1218. Em seus terrenos, Buzzi decidiu construir “a cidade ideal, que imaginei”, escreveu, “como um cenário de teatro”. Buzzi, que havia sido colaborador do arquiteto Gio Ponti e diretor da fábrica de vidro Venini, em Veneza, fazia parte da vanguarda arquitetônica, mas inclinava-se mais para a ornamentação e a cenografia do que seus pares modernistas de linhas mais minimalistas. La Scarzuola era seu outro mundo particular, escondido nas florestas da Úmbria. A obra, concebida como um navio gigante com uma leviatã nua na proa, inclui símbolos esotéricos extraídos da alquimia, cosmologia, cabala, maçonaria e hermetismo. Quando Buzzi faleceu em 1981, seu sobrinho, Marco Solari, mudou-se para o convento, restaurando La Scarzuola e seus jardins tomados pela vegetação, que se tornaram um sítio protegido e foram abertos ao público. Hoje, Solari conduz as visitas guiadas em italiano, mas, notoriamente irascível, muitas vezes opta por obscurecer em vez de explicar a fantasia arquitetônica de seu tio. As visitas em inglês, conduzidas por um escritor e restaurador australiano que reside no local, oferecem uma introdução mais clara e acolhedora. O enigma mais importante de La Scarzuola, no entanto, é o impulso que compartilha com outras obras épicas como o Cretto di Burri, Damanhur e o Jardim do Tarô: como os humanos dão forma às suas imaginações e o que podemos compreender sobre a vida ao experimentar as criações de outros. Passeios turísticos de € 10 a € 20 (entre R$ 60 e R$ 120 aproximadamente); só aceita dinheiro e exige reserva pelo info@lascarzuola.com.



