Um estudo inovador utilizou dados de localização de 10% dos celulares dos Estados Unidos para mapear os hábitos alimentares da população e sua relação com doenças cardiovasculares. A pesquisa, publicada na Nature Communications, analisou 94 milhões de visitas a 359 mil estabelecimentos de comida ao longo de 2018 e 2019, revelando que as pessoas percorrem distâncias muito maiores do que se imaginava para obter seus alimentos.
Como os dados foram obtidos
Os celulares registram continuamente a localização via GPS, transmitindo esses dados às operadoras. Um banco de dados anônimo compilou os deslocamentos de 10% dos celulares americanos, sem identificar nomes ou números. Cientistas cruzaram essas informações com um banco de dados de estabelecimentos comerciais, classificando os locais de compra de comida em fast food, supermercados, feiras e restaurantes.
Para identificar a residência de cada usuário, os pesquisadores determinaram onde o celular passou a maioria das noites ao longo de seis meses. Em seguida, mapearam as viagens entre a casa e os estabelecimentos alimentares.
Descoberta surpreendente sobre deslocamentos
Contrariando a crença anterior, as pessoas não se limitam a comprar comida perto de casa. Apenas 20,8% das visitas a locais de alimentação ocorrem a menos de 800 metros da residência. A maioria percorre mais de um quilômetro para buscar comida, e moradores de áreas rurais se deslocam ainda mais que os urbanos.
Segundo os autores, "essa mobilidade explica por que estudos anteriores não encontravam correlação entre a oferta de alimentos na vizinhança e a saúde cardiovascular".
Correlação com doenças cardiovasculares
Os cientistas então correlacionaram os padrões alimentares de cada distrito eleitoral com índices de obesidade, pressão alta e doenças cardiovasculares. O resultado confirmou que dietas ricas em alimentos processados, gorduras e pobres em frutas e verduras estão associadas a maior incidência dessas doenças.
"Essa descoberta esclarece a confusão de estudos anteriores que tentavam ligar a disponibilidade local de alimentos à saúde, sem considerar os longos deslocamentos", afirmam os pesquisadores.
Implicações e vantagens do método
O estudo demonstra que é possível analisar o comportamento de milhões de pessoas sem entrevistas, a um custo baixo. Métodos tradicionais dependem da memória e da honestidade dos participantes, além de amostras pequenas. Aqui, 10% da população dos EUA foi analisada apenas com dados anônimos.
No entanto, a pesquisa também levanta preocupações sobre privacidade. "Governos e empresas já são capazes de descobrir muito mais sobre nossos comportamentos do que suspeitamos", alertam os autores.



