A indústria brasileira de café solúvel se prepara para defender o produto nacional em audiência pública nos Estados Unidos contra a nova rodada de tarifas proposta por Donald Trump. O evento ocorre em 6 de julho, em Washington, e pode definir se os EUA vão impor sobretaxas ao Brasil.
O café solúvel é o único tipo de café excluído da lista de isenções dos novos tarifaços, situação que se repete desde o ano passado. “Nós vamos participar tanto da audiência como das manifestações por escrito”, afirma Aguinaldo Lima, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics).
Contexto das tarifas
Em 1º de junho, Trump propôs tarifas de 25% sobre mercadorias brasileiras após investigação sobre desmatamento ilegal, pirataria e PIX. No dia seguinte, anunciou taxas adicionais de 12,5% para 60 países, incluindo o Brasil, por falha no combate ao trabalho forçado.
Para ambos os casos, foi publicada vasta lista de isenções que inclui cafés em grão, torrado e moído. O café solúvel aromatizado também foi beneficiado, mas a versão tradicional ficou de fora. “Acreditamos que possa ter ocorrido alguma falha na classificação dos códigos, porque não faz sentido”, afirma Lima.
Possível reindustrialização
Outra hipótese levantada pela Abics é a tentativa americana de reindustrializar o setor. “Mesmo que os EUA decidam produzir mais café solúvel, ainda precisariam importar a matéria-prima. Além disso, trata-se de uma indústria que não leva menos de quatro ou cinco anos para ser instalada”, explica.
Lima comenta que tudo faz parte de um jogo mais complexo: “Os Estados Unidos querem um bom acordo na área de minerais críticos, terras raras, PIX, big techs e por aí vai.”
Argumentos do setor
Uma das linhas de argumentação será mostrar o impacto do tarifaço sobre a inflação do café nos EUA e a importância do solúvel brasileiro para a economia americana. “Essa análise ainda está sendo feita, mas vamos debater em cima de dados”, reforça Lima.
Números preliminares indicam que os EUA produzem apenas 6% do café solúvel consumido internamente. “Todo o restante é importado, principalmente do Brasil e do México. Em 2024, o Brasil respondeu por 37% de todo o volume de café solúvel importado pelos americanos”, afirma.
Os dados farão parte da manifestação escrita que a Abics prepara para enviar até 1º de julho, prazo fixado pelos EUA. Na audiência, cada pessoa tem apenas três minutos para falar. “Durante a apresentação, a gente precisa ser muito direto”, diz Lima.
Impacto econômico
Dados do Departamento de Estatísticas do Trabalho dos EUA mostram que a inflação do café solúvel nos EUA teve alta de 24% em maio, no acumulado em 12 meses. Entre agosto de 2025 e fevereiro deste ano, o produto brasileiro foi taxado em 50%, derrubando as vendas.
Em 20 de fevereiro, o Congresso americano derrubou essa sobretaxa, mas no mesmo dia Trump impôs tarifa global de 10%. “Em julho, vence o prazo da taxa de 10%”, lembra Lima. Caso as novas tarifas entrem em vigor, o café solúvel brasileiro pode ser taxado em 37,5%, provocando mais um baque para o setor.
Lima ressalta que parte da agregação de valor do café solúvel é feita nos EUA: “São as empresas de lá que envasam e fazem a distribuição. Isso gera emprego para os americanos. Não é um produto que vai pronto.”



