Tarifaço de Trump, crise dos Correios e desafios da IA no Brasil
Tarifaço de Trump, crise dos Correios e IA no Brasil

O Brasil não gosta de ser chamado de republiqueta, mas às vezes se comporta como uma. Ao reagir às declarações do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, o presidente Lula preferiu o ataque pessoal à resposta institucional, chamando-o de 'latino-americano frustrado'. Quem conhece a realidade cubana certamente não deve ter gostado. Em vez de escalar o conflito, Lula poderia ter respondido diplomaticamente ou aguardado um encontro para falar de igual para igual. Mas é mais fácil atirar a pedra e esconder a mão. Antes de se indignar com críticas externas ou com as tarifas de Donald Trump, o governo brasileiro deveria enfrentar problemas internos como o crime organizado, a pirataria e o desmatamento ilegal. E os brasileiros deveriam cobrar a crescente carga tributária que pesa sobre empresas e consumidores. Um país forte responde com resultados. Uma republiqueta, com ofensas.

Crise dos Correios se agrava

A situação dos Correios tornou-se insustentável. A empresa registrou prejuízo de R$ 8,5 bilhões em 2025 e projeta um rombo de cerca de R$ 10 bilhões para 2026. Para sobreviver, contraiu empréstimos bilionários com garantia da União – isto é, se a dívida não for quitada, a conta recairá sobre o Tesouro Nacional, ou seja, sobre o contribuinte. Agora pasmem: a estatal chegou a registrar lucro no governo Bolsonaro, tendo sido incluída no programa de desestatização. A proposta foi abortada por Lula, sob o argumento de que a empresa exerce uma função social, garantindo a universalização dos serviços postais. Hoje, 'Inês é morta'. Os Correios têm um patrimônio líquido negativo de R$ 16,2 bilhões. Ou seja, para ser privatizada, precisaria de um aporte da União dessa monta. Em outras palavras, a estatal vale menos do que deve. O contribuinte acaba encurralado entre duas alternativas igualmente onerosas: continuar financiando os prejuízos da empresa ou arcar com os custos de sua reestruturação para uma futura privatização.

Privatização é solução?

Quando jovem, eu era um sonhador, totalmente contrário à privatização de estatais por julgar que, independentemente da situação financeira delas, eram patrimônio do povo brasileiro. Hoje, mais velho e mais inteligente, tenho plena consciência de que, sendo essas empresas deficitárias, usadas como palanque eleitoral ou alvo de corrupção, devem, sim, ser privatizadas. Portanto, concordo plenamente com o editorial do Estadão de 3/6: Só a privatização salva os Correios.

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O desafio educacional da inteligência artificial

A entrevista de James Manyika, vice-presidente de tecnologias de inteligência artificial (IA) do Google, traz uma reflexão importante para o Brasil. Segundo ele, talvez seja mais vantajoso para países como o nosso disputar a corrida do uso da IA, e não necessariamente a corrida da criação dos grandes modelos, que hoje custam bilhões de dólares. Faz sentido. O Brasil talvez não precise, neste momento, tentar competir com as grandes empresas mundiais na criação das maiores IAs. Mas precisa, com urgência, aprender a usar essa tecnologia de forma inteligente, crítica e responsável. E é aí que entra a educação. Não basta colocar IA nas escolas, nos escritórios, nas empresas ou nos serviços públicos. Antes, é preciso formar pessoas capazes de pensar, interpretar, questionar, conferir e decidir. A inteligência artificial ainda é excelente em algumas coisas, mas surpreendentemente ruim em outras. Ou seja: ela ajuda, mas também erra. Ela acelera respostas, mas não substitui o raciocínio humano. Organiza informações, mas não garante sabedoria. Por isso, o grande desafio do Brasil não é só tecnológico; é educacional. De que adianta uma criança ter acesso à IA, se não aprendeu a interpretar um problema? De que adianta receber uma resposta pronta, se não sabe conferir se ela está correta? De que adianta usar uma ferramenta poderosa, se não tem método, critério e pensamento próprio? A IA pode ser uma grande aliada, mas só uma educação bem estruturada forma cidadãos capazes de usá-la sem serem conduzidos por ela. O futuro não será apenas de quem tiver acesso à tecnologia, mas de quem souber pensar antes de usar a tecnologia. Será de quem souber perguntar, analisar, comparar, conferir e decidir.

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Cartas dos leitores

Correios

Só a privatização salva os Correios. Será que ainda tem alguma empresa interessada na compra dos Correios? A estatal tem tecnologia de ponta? Não. Tem logística? Não. Tem administração enxuta? Não. Tem agilidade em entregas? Não. Tem produtividade? Não. Creio que passou o tempo de sua privatização. Agora será cada vez mais difícil.

Selo do prejuízo

Os Correios registraram prejuízo de R$ 3,16 bilhões apenas no primeiro trimestre de 2026, quase o dobro do mesmo período do ano anterior. A receita cai, as despesas aumentam e a recuperação prometida continua distante. Enquanto empresas privadas buscam eficiência e modernização para sobreviver, a estatal acumula prejuízos, contrata empréstimos com garantia da União e transfere a conta para o contribuinte. Os Correios já tiveram tempo para demonstrar capacidade de recuperação. Não conseguiram. Quando uma empresa perde bilhões ano após ano e depende cada vez mais de recursos públicos, a discussão sobre privatização deixa de ser ideológica e passa a ser econômica. Não se cobra gestão; a gestão pede mais dinheiro. Vamos assim até quando?

Demagogia

O senador Flávio Bolsonaro, quando pede ao presidente Trump para declarar o PCC e o CV como grupos terroristas, ou confessa absoluta ignorância, ou confessa prática pura de demagogia eleitoreira. Para o morador dos morros do Rio, essa classificação vai mudar alguma coisa em sua rotina? Vai ter desconto na TV a cabo ilegal ou no botijão de gás? Mas, para as empresas e o sistema bancário brasileiro, os riscos são enormes. Agora soubemos de mais um tarifaço, sobretaxando os produtos brasileiros, prejudicando nossas empresas e a competitividade internacional brasileira. Aí cabe a pergunta: o filho do Bolsonaro quer ser presidente do Brasil ou empregado a serviço do Trump?

Ataque ao Pix

Falar que o Pix será afetado diretamente pelos Estados Unidos é um grande exagero. O Pix é uma infraestrutura brasileira, operada pelo Banco Central, e suas transações são processadas dentro do sistema financeiro nacional. Em tese, sanções poderiam atingir bancos específicos, restringir seu acesso ao sistema Swift ou impactar serviços tecnológicos fornecidos por empresas americanas. Mas afirmar que os Estados Unidos podem simplesmente 'desligar o Pix' ou interromper seu funcionamento nacional não corresponde à realidade da arquitetura do sistema.

Novo tarifaço

O presidente brasileiro deveria não apenas defender o Pix, mas também incentivar o seu uso em substituição ao dos cartões de crédito, pois, assim, diminuir-se-á o dispêndio com a remuneração das empresas norte-americanas que administram esses cartões. O presidente norte-americano não se envergonha de defender empresas que lucram com as transações que se dão entre brasileiros.

Sanções americanas

Se o governo americano efetuar sanções financeiras ao Brasil em proteção às bandeiras de cartão de crédito americanas, as instituições bancárias brasileiras deveriam, em conjunto, lançar o cartão 'Brasilcard', e todos deveriam adquiri-lo e cancelar os outros cartões. O tiro de Trump pode sair pela culatra.

Combate ao crime

Quando lemos jornais, ouvimos rádio ou assistimos à televisão, somos bombardeados por notícias de crimes graves praticados por facções, servidores públicos que se desviaram de seus deveres, empresários influentes, titulares de mandatos eletivos e outros figurões que deveriam ter respeito à sociedade. Muitos ocupam cargos de alta responsabilidade, com acesso direto ao centro da máquina pública, mas acabam envolvidos em esquemas que revelam o grau de corrupção e impunidade em que vivemos. Nesse cenário, é justo reconhecer e elogiar o trabalho da Polícia Federal e do Ministério Público, cujas operações têm sido fundamentais para expor crimes sofisticados, prender envolvidos e apreender documentos, valores e materiais ilícitos. A cada nova investigação, fica mais evidente que a corrupção se espalhou por diferentes setores da vida pública e privada, atingindo inclusive pontos sensíveis do Estado. O caso do Banco Master, apontado como um dos maiores escândalos recentes, é exemplo desse quadro preocupante e ainda poderá revelar muitos nomes caso seus envolvidos decidam colaborar com a Justiça. Antes dele, a Lava Jato já havia mostrado a profundidade da corrupção nacional, ao atingir figuras importantes do governo e do empresariado e recuperar valores desviados dos cofres públicos. Hoje, os malfeitos continuam surgindo em várias regiões do País, fortalecendo a sensação de que o crime organizado avançou além do aceitável. Também preocupa a tensão com os Estados Unidos, maior potência política, econômica e militar do planeta. Em vez de trocar críticas, os Três Poderes brasileiros deveriam buscar diálogo e cooperação para enfrentar o crime com responsabilidade. Se houvesse entendimento, talvez os resultados fossem melhores. Mas as farpas já trocadas dificultam esse caminho. Lamentável.

Problemas do Brasil

São muitos os problemas do Brasil, e dois deles são multiplicadores dos outros: a ausência do Estado nas comunidades e a corrupção. As comunidades crescem sem urbanização, sem ordenação e sem o controle do Estado; então, o poder paralelo se instala. A corrupção é o caminho para a agilidade e a solução dos problemas. O dinheiro 'por fora' abre portas, os políticos são corruptos, e os agentes de fiscalização jogam o jogo. Enfim, temos de moralizar o País – resta saber como.

Escala 6x1

A decisão eleitoreira do governo Lula, às vésperas da eleição de outubro, de substituir sem negociação, na base da canetada, a tradicional jornada de trabalho 6x1 pela 5x2, sob o descabido e inapropriado argumento de que um dia de descanso é muito pouco para se ter qualidade de vida, não causa surpresa. Como se sabe, o presidente da República nunca foi um bom exemplo de labuta propriamente dita. Um país de baixa produtividade por trabalhador, em comparação até com vizinhos sul-americanos, não pode se dar ao luxo de uma semana de cinco dias de lide sem antes aumentar o resultado do trabalho. Caso contrário, seguirá patinando, preso na armadilha da renda média que não consegue crescer. Com a decisão, tudo indica que o salário-hora vai subir, haverá demissões, e o custo de produtos e serviços irá aumentar. No frigir dos ovos, todos sairão perdendo: trabalhadores, empresários e o País. Pobre Brasil.

Legislação trabalhista

A legislação trabalhista deve ser alterada de forma gradual, depois de muita discussão e com muita cautela, pois envolve milhões de trabalhadores. Para Lula, isso pouco importa, o que lhe interessa é conseguir mais votos. Que se danem os microempresários de todo o País que terão de negociar em 60 dias um regime que existe há anos e que funciona bem.

O problema do Brasil

Frustrante mesmo é assistir a algum ilustre cidadão brasileiro emitir sua opinião publicamente com a introdução: 'O problema do Brasil é...'. Figuras ocupando cargos no topo da administração oficial; políticos, supostamente bem-intencionados, engalfinhando-se na busca desesperada por votos; artistas sonhando com seus mundos particulares; cientistas sem apoio dando murro em ponta de faca; professores perdidos vendo a educação pública deslizar para baixo; empreendedores inadimplentes esperando por incentivos. São estes, entre muitos, os profundos conhecedores do problema do Brasil, segundo a concepção particular de cada um. Poucos, no entanto, se mobilizam para propor soluções ou tomar iniciativas concretas para colocá-las de pé. Este parece ser o principal problema do Brasil.

'Herança maldita'

Pobre daquele que assumir o Brasil em 2027. Com o País arrasado, terá um trabalho insano e impopular, pois, sem recursos, terá de reduzir a dispendiosa e ineficiente máquina pública e melhorar os serviços básicos e investir. Se elegermos Lula para desfrutar da 'herança maldita' deixada por ele mesmo, será um erro grosseiro e elementar, pois ele só vai, sem limite de gastos, ampliar seus dispendiosos passeios, inclusive internacionais, e, administrativamente, ignorar o Brasil, como sempre fez. Aquele que tiver a infelicidade de assumir o Brasil, substituindo Lula, nada poderá fazer e será injuriado pela população. Com Lula ou sem Lula, ficará ruim. É um autêntico 'se ficar, o bicho pega; se correr, o bicho come', mas, com ele, só vai piorar.

Tese do esgotamento

Muita gente vai votar no Lula para um quarto mandato não por amor, mas por cálculo. A lógica é: se ele criou o problema, que receba o governo dele mesmo. Sem Bolsonaro, sem Temer, sem crise internacional para botar a culpa. Se o País sair de controle, o nome que fica na História é o dele. E o destino seria o exílio em Cuba, Irã, Venezuela ou China. É a tese do esgotamento: só acaba quando acabar.

Reeleição

A ideia da reeleição era oferecer a oportunidade para um ótimo governante se eleger novamente ao fim do mandato. Porém, o que tem acontecido é exatamente o oposto disso: péssimos governantes que não largam o osso nunca. É inacreditável que Lula da Silva pretenda se arrastar por mais quatro anos no poder. Pior ainda é a assombração da volta de Jair Bolsonaro. Deputados e senadores que fazem do Congresso uma espécie de clube da terceira idade se perpetuam no poder, contando o dinheiro da rachadinha e mais nada. Pelo fim da reeleição já.

Seleção Brasileira

O percurso da seleção brasileira para a Copa do Mundo transcorreu sob um silêncio quase protocolar pelas ruas, tão discreto que parecia tratar-se do embarque de uma delegação administrativa, e não da equipe que ostenta cinco estrelas no peito. Não havia bandeiras tremulando, torcedores aglomerados, cantos improvisados ou a habitual expectativa coletiva que, em outros tempos, transformava aeroportos em extensões das arquibancadas. A equipe embarcou sem o calor popular que historicamente acompanhava seus passos rumo às grandes competições. O contraste com o passado é eloquente. Até clubes de alcance regional mobilizam multidões para celebrar uma viagem decisiva. Na despedida da seleção, porém, não houve rojões como manifestação espontânea de entusiasmo. Apenas o silêncio. Um silêncio que talvez diga mais do que muitas análises esportivas: revela a crescente distância entre a população e a equipe que, durante décadas, foi um dos mais poderosos símbolos de identidade nacional. Hoje, lamentavelmente, as cinco estrelas parecem brilhar menos pela paixão que despertam e mais pela memória do que já representaram.