O governo brasileiro afirmou que o tarifaço imposto pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, atinge 18% das exportações brasileiras para o mercado americano. Em resposta, o Brasil anunciará um programa de apoio às empresas afetadas e declarou que pode adotar a Lei da Reciprocidade, instrumento aprovado pelo Congresso Nacional em abril de 2025.
Nota oficial e reação do governo Lula
A primeira manifestação do governo brasileiro ocorreu ainda na madrugada, logo após o anúncio dos Estados Unidos. Em nota, também publicada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em redes sociais, o governo classificou o dia como "um marco lastimável" nas relações bilaterais. O documento afirma que o Brasil não reconhece a legitimidade de investigações sem amparo nas regras multilaterais de comércio e que atuou ininterruptamente junto aos Estados Unidos, apresentando evidências que refutam cada uma das alegações sobre supostas práticas desleais de comércio.
O governo brasileiro declarou que seguirá adotando medidas para reduzir os danos à economia e à renda dos brasileiros, além de continuar diversificando parcerias comerciais e abrindo novos mercados. Anunciou também que iniciará imediatamente os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional.
Lei da Reciprocidade e medidas de retaliação
A Lei de Reciprocidade, aprovada em abril de 2025 em meio às primeiras ameaças de Trump, permite que o governo adote medidas de retaliação contra países ou blocos econômicos que imponham barreiras comerciais, legais ou políticas contra o Brasil. Entre as medidas possíveis estão a imposição de tarifas adicionais ou sobretaxas a bens ou serviços importados do país que impôs as barreiras, e a possibilidade de o Brasil deixar de cumprir termos de acordos comerciais já existentes.
O governo afirma que vai insistir nas negociações, mas prepara em paralelo um programa de apoio às empresas brasileiras afetadas. Setores como madeira, máquinas, equipamentos elétricos, calçados e açúcar terão prioridade.
Críticas de pré-candidatos e polarização política
A resposta do governo brasileiro também atribuiu a imposição das novas tarifas a um enredo construído com a ativa colaboração da família Bolsonaro, chamando de "falsos patriotas que arquitetaram e defenderam publicamente ações contra o nosso país, movidos por objetivos eleitoreiros". A nota concluiu que "proteger a nossa soberania é uma obrigação que está acima de todos os partidos e todas as tendências".
Pré-candidatos à presidência também se manifestaram. O senador Flávio Bolsonaro (PL) culpou o atual governo: "O presidente Lula e seu governo não negociaram com os Estados Unidos de boa fé. Suas políticas econômicas são ruins para os americanos e ruins para os brasileiros. No último ano, Lula colocou o seu próprio ego à frente de fazer um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro".
Ronaldo Caiado (PSD) criticou ambos os concorrentes: "25% tarifando aí mais de 4 mil produtos brasileiros. Isso é uma penalização direta a quem trabalha e a quem produz no Brasil. Então, pergunto a Lula e ao Flávio: vocês estão defendendo o interesse de uma campanha eleitoral? O Brasil ficou de fora da defesa de vocês e o Brasil está sendo penalizado agora".
Renan Santos (Missão) responsabilizou Trump, Lula e a família Bolsonaro, citando o impacto em setores como etanol e calçados: "Taxaram a gente, taxaram a gente, taxaram feio e taxaram especialmente alguns setores fundamentais para a economia industrial brasileira. Estou falando do etanol, uma indústria que envolve agro e envolve produção. E estou falando agora, por exemplo, da indústria calçadista. Dois setores que assim, não digo que vão quebrar, mas vão demitir gente e vão passar por uma crise muito braba".
Romeu Zema (Novo) condenou a decisão americana e criticou a condução das negociações: "Em vez de negociar com seriedade e defender os interesses do Brasil, criou atritos desnecessários e transformou a política externa em palanque eleitoral. Se tivesse agido com responsabilidade, poderia ter evitado essa retaliação. Mas uma coisa tem que ficar clara: os erros do governo Lula não justificam o tarifaço americano. O Brasil precisa ser respeitado".
Reação do chanceler Mauro Vieira e outros ministros
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, respondeu ao secretário de Estado americano, Marco Rubio, que havia acusado o presidente Lula de não negociar de boa fé. "Desde o primeiro momento, o presidente Lula buscou o diálogo e enfatizou sua disposição de negociar qualquer tema. Nesse sentido, as declarações do secretário de Estado Marco Rubio são inaceitáveis, ofensivas ao povo brasileiro e ao governo brasileiro. Rubio ataca de forma grosseira e arrogante o chefe de Estado de um país amigo. Claramente, o que incomoda o governo dos Estados Unidos é o fato de o Brasil não ter se curvado às pretensões desmedidas e às demandas irrazoáveis apresentadas no curso das negociações. Cito como exemplo demandas de abertura total, irrestrita e exclusiva aos Estados Unidos de setores inteiros da economia brasileira, sem qualquer contrapartida para os produtos brasileiros", afirmou Vieira.
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, assegurou que o modelo do PIX continuará público e gratuito, rebatendo o argumento americano de que o PIX prejudicou o mercado de cartões de crédito. Segundo Galípolo, após o PIX houve um crescimento de 150% no uso dos cartões. Ele usou uma metáfora: "Seria mais ou menos como você tentar dizer que você, ao criar o saneamento básico, prejudicou a receita de quem tem caminhão-pipa, basicamente".
O ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, disse que os argumentos dos EUA sobre suposto aumento do desmatamento são "absolutamente improcedentes" e que o Brasil apresentou dados que mostram o contrário. Ele afirmou que toda a madeira exportada pelo Brasil é certificada e passa por um sistema rigoroso de fiscalização.
O vice-presidente Geraldo Alckmin classificou a medida americana como injusta e descabida, explicando que adotar a lei da reciprocidade não significa retaliação, mas defesa dos interesses do Brasil: "Não há retaliação. O que existe é uma lei defendendo o interesse nacional, o interesse dos brasileiros, da economia brasileira, que é a reciprocidade. Aprovada por unanimidade, é um instrumento jurídico legal importante, que o governo analisará o momento e a forma de fazê-lo".
STF reage a declarações americanas
O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Luiz Edson Fachin, respondeu às manifestações dos Estados Unidos que relacionam a adoção do tarifaço a decisões da Justiça brasileira. Em nota, Fachin declarou que o Supremo atua exclusivamente com base na Constituição; que o respeito à independência judicial é parâmetro indispensável nas relações entre Estados soberanos; e que a Justiça brasileira continuará exercendo suas funções sem qualquer influência, pressão ou condicionamento de natureza externa.



