Redes sociais superam imprensa na informação, aponta Digital News Report 2026
Redes sociais superam imprensa na informação, diz relatório

O uso das redes sociais como fonte de informação superou pela primeira vez o da imprensa tradicional, segundo o Digital News Report 2026, publicado pelo Instituto Reuters e pela Universidade de Oxford. Na média de quase 100 mil pessoas em 48 países, incluindo o Brasil, 54% utilizam essas plataformas para se informar, contra 51% que recorrem à imprensa. O relatório, divulgado em 16 de junho, aponta um fenômeno chamado de "plataformização" da notícia, que transforma a relação do público com a informação.

O que é a plataformização da notícia?

O termo descreve a crescente intermediação das plataformas digitais no consumo de conteúdo jornalístico. Embora o conteúdo ainda seja majoritariamente produzido por veículos profissionais, a distribuição passa a ser controlada por algoritmos e sistemas de recomendação. Segundo o relatório, o risco não é que as plataformas digam às pessoas como pensar, mas que indiquem sutilmente sobre o que pensar, influenciando o debate público antes mesmo da formação de opinião.

Alphonse Hardel, líder da agência de notícias Reuters, apresentou o relatório destacando que a ilusão de liberdade informacional é perigosa. "As pessoas acreditam estar acessando as fontes dos fatos, mas acabam sendo iludidas por sistemas que filtram, priorizam e reescrevem as informações", afirmou. Diferentemente do jornalismo, onde há critérios editoriais transparentes, as plataformas priorizam o engajamento, sem compromisso com a veracidade.

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Impactos na confiança e no debate público

O relatório revela que a confiança no noticiário atingiu o menor patamar em uma década, com apenas 37% das pessoas confiando na informação como um todo. No Brasil, o índice é ainda menor: 36%, uma queda drástica em relação aos 62% registrados em 2015. Apesar de usarem mais as redes sociais, apenas 22% dos entrevistados confiam nas notícias consumidas por meio delas. A confiança em notícias vindas de plataformas de IA é ainda menor, 20%.

No Brasil, todos os veículos jornalísticos analisados receberam voto de confiança de mais de 50% do público, liderados pela CNN Brasil (62%). Isso indica que as pessoas reconhecem a qualidade do jornalismo profissional, mas preferem a facilidade e o entretenimento das redes sociais, mesmo percebendo ruído, opinião e falta de responsabilidade editorial.

Fragmentação e perda de contexto

A plataformização elimina o contexto que o jornalismo oferece. Enquanto a imprensa organiza fatos, explica antecedentes e consequências, nas plataformas a notícia aparece fragmentada, em vídeos curtos, misturada a comentários e memes. Isso empobrece o debate público, pois o público acredita estar bem informado sem ter visto a reportagem original.

Outro problema é a fragmentação da agenda pública. Antes, a população compartilhava um conjunto mínimo de fatos ao assistir aos mesmos telejornais. Hoje, dois vizinhos podem receber notícias completamente diferentes no mesmo horário, reduzindo referências comuns e dificultando o diálogo democrático.

Informação passiva e terceirização da realidade

O relatório aponta que informar-se tornou-se uma atividade passiva. As pessoas abrem uma plataforma para conversar ou se entreter, e a notícia aparece misturada a publicidade e opiniões. "Terceirizamos a decisão sobre o que merece nossa atenção, em que ordem veremos os acontecimentos e quais perspectivas chegarão até nós", destaca o estudo. Isso traz o risco de o que realmente importa ficar de fora.

O maior desafio do jornalismo, segundo o Digital News Report, é permanecer visível em um ambiente onde a atenção é o recurso mais disputado e os intermediários digitais decidem o que cada cidadão vê primeiro. O público perde gradualmente sua autonomia informacional, consumindo uma versão do mundo organizada por critérios que não definiu e não conhece.

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