Com o Tesouro pagando IPCA+8% ao ano, a tentação de ficar no Brasil é grande, mas gestores ouvidos pelo InfoMoney recomendam o contrário. Para eles, a taxa elevada não compensa abrir mão da moeda forte, após um primeiro semestre instável e diante de um segundo semestre com eleições presidenciais e oportunidades lá fora.
Interesse por investimentos internacionais segue firme
O interesse por investimentos internacionais é constante e crescente, mesmo com juros altos no Brasil, afirma Marc Foster, diretor-geral da Franklin Templeton Brasil. “Percebemos isso de maneira clara nas conversas com assessores de investimentos e investidores institucionais”, diz. “Até perguntamos por que sair do Brasil se a ‘B’ (NTN-B) está ‘8’ (porcento ao ano) e eles respondem que é justamente por isso, essa taxa não é de graça”, afirma.
Mudanças no Fed redesenham alocação global
O segundo semestre começa com Kevin Warsh, novo presidente do Federal Reserve, anunciando a desmontagem radical da arquitetura de comunicação do banco central americano, com a extinção de importantes projeções. Essas mudanças, afirma Marcelo Cabral, gestor e fundador da Stratton Capital, representam uma revolução na forma como o Fed se relaciona com o mercado, acabando com a âncora de precificação que sustentou trilhões de dólares em ativos nos últimos 30 anos.
Para o investidor brasileiro que já compreendeu a necessidade estrutural de internacionalizar o patrimônio, as mudanças redesenharam o mapa de alocação global. Na renda fixa, a estratégia mais eficiente consiste em concentrar a exposição na parte curta da curva de juros do dólar, ou seja, Treasuries entre dois e três anos, evitando vencimentos mais longos e mantendo alta seletividade na qualidade de crédito.
Renda fixa americana: títulos de curto e médio prazo
O cenário de juros altos nos Estados Unidos, com a manutenção recente da taxa pelo Fed e o risco de novas elevações no segundo semestre já incorporado à curva das Treasuries, favorece os investimentos em títulos corporativos de vencimentos intermediários, entre 3 e 5 anos, sobretudo para empresas de maior rendimento e risco (high yield). Já no caso de títulos de empresas de baixo risco (high grade), os vencimentos podem ser um pouco mais longos, já que o risco de crédito é menor, afirma Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Fórum Investimentos.
Renda variável nos EUA: IA e petróleo em destaque
Cabral acredita que o ciclo de IA continua sendo o principal catalisador de crescimento de lucros corporativos globais, com investimentos massivos em infraestrutura computacional. “Mas o setor [de IA] é bastante volátil e arriscado, apropriado somente para investidores de longo prazo e com alta tolerância ao risco”, alerta. Para ele, o que está em curso não é um ciclo especulativo de curto prazo, mas a construção da espinha dorsal da economia global das próximas décadas.
Os cinco maiores hyperscalers — Amazon, Microsoft, Alphabet, Meta e Oracle — anunciaram investimentos de mais de US$ 700 bilhões em infraestrutura de IA somente este ano, quase dobrando os níveis de 2025, valor que irradia demanda por toda a cadeia do setor. Cabral cita ainda a transição para a “IA agêntica” (IA 2.0), que pode agir de maneira autônoma e deve sustentar o ciclo de investimento por vários anos.
Na Franklin Templeton, a visão para ações de tecnologia americanas é positiva, “mas quando se olha no curto prazo, o nível de preço atual traz cautela, porque existe necessidade de materialização de muitos investimentos”, observa Daniel Popovich, gestor de portfólios.
Outra oportunidade é o setor de petróleo. Para Cabral, os efeitos do bloqueio do Estreito de Ormuz não vão se dissipar rapidamente, mesmo com o fim do conflito militar. A guerra expôs a fragilidade da cadeia logística de petróleo, aumentando o prêmio de risco embutido no preço. “No mercado financeiro, isso significa reprecificação de várias empresas no setor”, afirma. A reposição das reservas estratégicas e a necessidade de novas rotas logísticas devem manter o preço elevado nos próximos anos, beneficiando empresas de equipamentos e serviços para oleodutos e terminais.
Hedge funds de volta ao radar
Fundos multimercados (hedge funds) também são boa alternativa por sua versatilidade em um mercado com alto nível de incerteza, dizem os especialistas. Segundo Perri, da Fórum Investimentos, o cenário atual de juros mais altos e curvas com mais prêmios, somado a prêmios de risco no crédito privado ligeiramente mais generosos, torna essas estratégias interessantes em um mercado com bolsas bastante valorizadas. “Portanto, para a porção de risco, acredito em estratégias menos diretas, como os hedge funds”, explica.
“Os multimercados locais vêm desapontando um pouco na média, mas lá fora o cenário é totalmente oposto, estão bombando de novo e há um interesse renovado”, afirma Popovich, da Franklin Templeton. Com hedge cambial, que garante o diferencial de juros, o investidor local acessa lá fora um retorno parecido com o que esperava aqui, mas com gestão de risco e diversificação melhores. Muitos investidores de varejo entraram em fundos de crédito no exterior para diversificar a exposição ao risco. “E com a proteção cambial aqui, que permite aproveitar o nível de diferencial de juros que temos hoje, é uma classe que faz sentido para quem olha o CDI”, diz.
A vez da Europa e da China?
Um mercado que repetidamente supera recordes de alta impulsionado por um punhado de empresas relacionadas à IA não é, por si só, motivo para cautela, avalia a gestora britânica Janus Henderson. Segundo Lucas Klein, responsável por ações de Europa, Oriente Médio, África e Ásia-Pacífico da gestora, e Marc Pinto, analista para as Américas, os ganhos deste ano têm origem em fundamentos sólidos, ou seja, revisões de lucros significativamente mais altas. Ainda assim, a confiança das ações esconde alguma incerteza, como qual será o próximo setor a ser revolucionado pela IA ou como o mercado absorverá o fluxo de ofertas públicas iniciais do setor.
As ações europeias, impulsionadas pelo setor da defesa após a guerra na Ucrânia e o menor envolvimento do governo americano, e o mercado chinês, principalmente com os carros elétricos, também são alternativas. Ao mesmo tempo, eles recomendam ficar de olho nas empresas ligadas à inovação em setores como o biofarmacêutico e prontas para participar de grandes fusões e aquisições, que devem ser impulsionadas pelo ambiente favorável dos juros.
Já a XP traz recomendação neutra para EUA, Europa e Reino Unido, e abaixo do neutro para o Japão, refletindo a forte expansão de múltiplos das ações do país. Na casa, as principais apostas são em mercados emergentes e na China, marcada pelo intenso ciclo de investimentos em inteligência artificial e pela busca por independência de cadeias de valor frente ao Ocidente.
Cautela na diversificação
Cabral, da Stratton Capital, reforça que é importante contextualizar essas oportunidades. “A decisão de investir no exterior não pode ser uma aposta especulativa de curto prazo motivada pela conjuntura dos próximos meses”, afirma. A razão para investir no exterior em moeda forte decorre de um movimento estrutural de diversificação de risco e busca de oportunidades que não estão disponíveis no mercado brasileiro, que representa menos de 2% do mercado global. “Globalizar a carteira não é especular sobre movimentos de curto prazo; é construir uma estratégia de longo prazo capaz de proteger patrimônio e capturar o crescimento da economia global em sua totalidade”, conclui.



