O governo de Donald Trump está revisando regras para reverter supostas violações ao direito de portar armas previsto na Segunda Emenda. O Departamento de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos (ATF) apresentou 34 propostas de mudanças na regulação do comércio de armas, incluindo reverter restrições impostas por Joe Biden e liberar a compra online, eliminando a necessidade de comparecimento a loja física para verificação de antecedentes criminais.
Facilitação pode alimentar tráfico internacional
Críticos alertam que a flexibilização pode aumentar tiroteios nos EUA e alimentar o tráfico para outros países, especialmente para facções brasileiras como PCC e CV. Em maio, Trump classificou essas facções como terroristas, medida criticada pelo governo Lula. Os EUA são a principal origem dos fuzis usados por essas organizações, embora a produção clandestina nacional esteja crescendo.
Uma forma comum de tráfico é o envio de armas legais compradas nos EUA dentro de mercadorias comuns. Em maio, um fuzil AK-47 enviado da Flórida foi apreendido no Aeroporto de Viracopos, desmontado dentro de um forno. Em março de 2024, 30 fuzis foram encontrados camuflados em prensas hidráulicas com destino a São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Especialistas criticam propostas
John Lindsay-Poland, coordenador do projeto Stop US Arms to Mexico, afirma que a proposta de permitir entrega de armas pelos Correios é preocupante: 'O comprador pode ser qualquer pessoa sem razão legítima para adquirir a arma.' Para ele, a designação de facções como terroristas não impacta o tráfico, pois o problema é o mercado civil militarizado nos EUA.
Bruno Langeani, do Instituto Sou da Paz, questiona se a classificação resultará em sanções a lojas da Flórida que abastecem facções. 'Se não houver sanção, fica claro que é uma medida político-eleitoral.'
Exportações legais também são desviadas
Matt Schroeder, da Small Arms Survey, afirma que o tráfico ilegal movimenta dezenas de milhares de armas por ano, com pessoas sem antecedentes comprando legalmente e enviando para destinos criminosos. Ele acredita que a facilitação doméstica não terá grande impacto, mas o afrouxamento de controles de exportação pode aumentar desvios. Em setembro de 2025, Trump revogou restrições a exportações para 36 países, incluindo Paraguai, Colômbia e Peru, justificando 'centenas de milhões de dólares em oportunidades de exportação'. A Anistia Internacional criticou, citando relatório do GAO de 2022 que mostrou que quase 20% das armas de crime recuperadas na América Central vieram de exportações licenciadas.
A BBC News Brasil questionou a Casa Branca, mas não obteve resposta.
Apreensões de fuzis no Brasil crescem
Levantamento do Sou da Paz mostra que apreensões de fuzis cresceram 167% desde 2021, com 2.152 unidades em 2025. Entre 2019 e 2023, 738 fuzis apreendidos eram dos EUA e 586 do Brasil. A PM do Rio de Janeiro identificou que 94,7% dos fuzis apreendidos em 2024 eram estrangeiros, principalmente americanos (60%). Langeani critica o relatório, pois armas falsificadas podem ser produzidas clandestinamente, e a flexibilização de regras no governo Bolsonaro permitiu que CACs comprassem fuzis, desviados para o crime.
Fábricas clandestinas são 'principal dor de cabeça'
Michele dos Ramos, diretora da Senasp, afirma que as fábricas clandestinas são a principal preocupação. 'A qualidade aumentou muito nos últimos cinco anos e o custo é menor que trazer dos EUA.' Em 2024, uma fábrica em Santa Bárbara d'Oeste (SP) produzia 3,5 mil fuzis por ano. José Anchiêta Nery Neto, da Senasp, explica que essas 'armas fantasma' têm capacidade inferior, mas servem para combate urbano a preço menor, usando componentes importados ou nacionais.



