O anúncio do Escritório de Comércio dos Estados Unidos (USTR) de que propôs uma tarifa de 25% sobre várias exportações brasileiras foi interpretado pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva como um movimento político, segundo duas fontes que acompanham as negociações. A medida não levou em conta as discussões em curso e os esclarecimentos apresentados pelo Brasil, disseram as fontes à Reuters.
Reação oficial ainda não ocorreu
Até o momento, não há uma reação oficial do Brasil. O Itamaraty e a Presidência da República não responderam imediatamente aos pedidos de comentário da Reuters. A decisão foi apresentada pelo USTR na noite de segunda-feira.
Alegações dos EUA
Em declaração, o representante de comércio norte-americano, Jamieson Greer, afirmou que algumas políticas brasileiras relacionadas a comércio eletrônico, pagamentos digitais, tarifas preferenciais, desmatamento e mercado de etanol restringem o comércio norte-americano. Por isso, o país pode ser alvo de medidas sob a Seção 301 de uma lei norte-americana sobre comércio.
Uma das fontes afirmou: “São as mesmas alegações de quando eles abriram a 301 (investigação), desconsideraram todas as explicações. É político mesmo.”
Contexto da investigação
A investigação foi aberta em julho de 2025, no mesmo momento em que os EUA anunciaram tarifas de 50% contra as exportações brasileiras e sanções a membros do STF e do governo, com base em suposta perseguição ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Desde então, após Lula e Donald Trump estabelecerem uma relação, parte das tarifas foi suspensa e o restante caiu após decisão da Suprema Corte dos EUA de que a base legal para imposição de tarifas amplas não tinha fundamento.
Expectativas frustradas
A expectativa era de que a Seção 301 pudesse ser usada como base legal para retomada de taxações. Desde a decisão da Suprema Corte, os EUA abriram investigações contra mais de 80 países com base na 301. A decisão anunciada nesta segunda descumpre, por poucos dias, o prazo acordado entre os presidentes durante a recente viagem de Lula a Washington. Na conversa na Casa Branca, o acordo foi de que, por 30 dias, os dois países tentariam chegar a um acordo antes de tarifas serem anunciadas.
Conflitos entre equipes
Apesar da boa relação entre os presidentes, há pontos de conflito generalizados entre as equipes dos governos. Recentemente, uma disputa sobre moratória para impostos em comércio eletrônico na OMC azedou as relações, com Greer dizendo que não teria mais “boa vontade” com o Brasil. O governo brasileiro vê o Departamento de Estado dos EUA como principal bastião de apoio ao bolsonarismo dentro do governo Trump, e aponta crescimento das articulações neste ano eleitoral.
Uma segunda fonte afirmou: “O Departamento de Estado é um lado consistentemente contrário ao Brasil, a gente sabe disso.”
Encontro com Flávio Bolsonaro
Na semana passada, após encontro com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro e pré-candidato à Presidência, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, anunciou a inclusão das facções criminosas PCC e Comando Vermelho na lista de organizações terroristas internacionais, medida que o governo brasileiro tentou evitar.
Em publicação nas redes sociais, Flávio afirmou que pediu “expressamente” nas reuniões com Trump e outras autoridades que os EUA não impusessem tarifas sobre empresas brasileiras. Após o tarifaço dos EUA sobre o Brasil no ano passado, o governo Lula passou a adotar discurso de defesa da soberania nacional e a responsabilizar o ex-deputado Eduardo Bolsonaro por influenciar na imposição das taxas. A estratégia levou a uma recuperação de Lula nas pesquisas de opinião.
Novo embaixador dos EUA
Nesta semana, foi anunciada a indicação de um novo embaixador dos EUA para o Brasil, cargo vago há mais de um ano. Daniel Perez, deputado estadual da Flórida, filho de imigrantes cubanos, é um seguidor fiel do movimento Make America Great Again (Maga), núcleo duro da base de apoio de Trump, e não um diplomata de carreira.
Tarifas não são obrigatórias
A imposição das tarifas propostas não é obrigatória. Cabe a Trump decidir quando, como e se vai impor as tarifas. Uma das fontes apontou: “A Casa Branca vai ficar com essa carta na manga para usar quando quiser, e em um ano eleitoral.”



