O Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) se reúne nesta quarta-feira (29) para anunciar a decisão sobre a política monetária nos Estados Unidos. Diferente das outras reuniões, em que o Banco Central do Brasil também anunciava a taxa de juros doméstica, desta vez apenas os EUA se reúnem. As projeções do mercado não estão tão alinhadas como de costume, aumentando a incerteza.
Expectativas divididas entre manutenção e alta
De acordo com Gustavo Spinola, estrategista-chefe da RB Investimentos, cerca de 70% dos agentes esperam manutenção da taxa de juros, enquanto aproximadamente 30% apostam em elevação de 0,25 ponto percentual. Para o Bradesco, a expectativa pende mais para a manutenção da taxa em 3,75%.
Além da decisão, o mercado ficará atento ao tom e ao volume de informações divulgados pelo Fed. Spinola afirma que, se o comunicado for sucinto e apresentar tom similar ao do início do ciclo anterior, o mercado pode reduzir a precificação de altas para a reunião de agosto. "Esse cenário favoreceria a desvalorização do dólar frente a outras moedas, a queda nas taxas de juros e o fortalecimento das bolsas", explica. Por outro lado, qualquer sinalização de endurecimento na política monetária pode provocar movimento oposto.
Comunicado duro e impacto nos mercados
Rafael Passos, sócio da Ajax Asset, acredita que o comunicado deverá seguir "duro", em linha com os recentes discursos de Kevin Warsh. Para ele, o texto deve reforçar que o Fed não será complacente com uma inflação acima da meta, como observado nos últimos cinco anos. Segundo Passos, ainda que possa haver movimento de juros de curto prazo após a decisão, o discurso duro deixa em aberto a possibilidade de altas nas próximas reuniões. "As próximas decisões devem ficar ainda mais dependentes da evolução dos dados", afirma.
Com o risco de novas altas crescendo, diante de possíveis choques adicionais de oferta, Passos espera alguma abertura de taxas e dólar mais forte. "Para a bolsa americana, o cenário ainda se mostra favorável. O crescimento dos lucros segue robusto e a eventual alta de juros seria interpretada mais como um adiamento do ciclo de afrouxamento monetário do que como uma mudança estrutural", explica. No Brasil, os DIs podem abrir com alta das taxas das treasuries, enquanto o real pode se depreciar com o dólar mais forte.
Próximas reuniões e incertezas geopolíticas
A trajetória dos juros nos Estados Unidos até o fim de 2026 deve continuar cercada de incertezas. Embora a expectativa majoritária seja de manutenção da taxa nesta reunião, o consenso é que os próximos passos do Fed dependerão principalmente da evolução da inflação e dos riscos geopolíticos.
Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, avalia que o cenário-base continua sendo de manutenção dos juros entre 3,50% e 3,75%, mas destaca a atenção do mercado na comunicação do Fed. Uma eventual mudança no tom pode fornecer pistas importantes, especialmente em um contexto de pressões inflacionárias associadas à alta dos preços da energia, ao aumento dos investimentos em inteligência artificial e aos efeitos das tarifas comerciais dos EUA.
Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, afirma que a melhora recente dos indicadores de inflação ajuda a afastar a necessidade de novas altas no curto prazo. No entanto, a dinâmica dos preços de energia continuará sendo um fator determinante, justificando uma postura cautelosa do Fed.
Nova liderança e volatilidade
Caio Ignácio, especialista em investimentos e fundador da Boa Brasil Capital, acredita que o mercado precisará se adaptar à nova dinâmica sob a liderança de Kevin Warsh. Segundo ele, o novo presidente do Fed tem reduzido significativamente as sinalizações antecipadas, aumentando a incerteza dos investidores e elevando a volatilidade antes de cada reunião. Dois fatores serão decisivos para o restante do ano: a evolução do conflito no Oriente Médio e os efeitos das tarifas americanas sobre a inflação. Caso esses elementos continuem pressionando os preços, o espaço para cortes de juros pode ficar mais limitado. Ignácio não descarta novas altas de juros, com uma elevação adicional de 0,25 ponto percentual agora sendo considerada pelo mercado.
Thais Machado, especialista em investimentos e sócia da GT Capital, também vê risco de aperto monetário adicional nos próximos meses. Embora espere manutenção dos juros agora, ela avalia que a inflação pode ganhar força se os preços do petróleo permanecerem elevados, afetando custos de energia, transporte e outros setores. Segundo ela, a condução mais reservada de Kevin Warsh torna cada decisão do Fed ainda mais dependente dos dados econômicos. A autoridade monetária deve adotar uma postura cautelosa até o fim do ano, mantendo flexibilidade para reagir a eventuais pressões inflacionárias e deixando aberta a possibilidade de novas altas.



