Trinta anos após a crise financeira asiática de 1997, a Coreia do Sul ainda lida com os fantasmas daquele período, que deixaram marcas profundas na economia e na sociedade do país. A crise, que levou o país à beira da falência e exigiu um resgate bilionário do Fundo Monetário Internacional (FMI), resultou em reformas dolorosas, mas também criou vulnerabilidades que persistem até hoje.
O legado da crise
A crise de 1997 foi um divisor de águas para a Coreia do Sul. O país, que até então era um dos tigres asiáticos com crescimento acelerado, viu seu PIB contrair 5,1% em 1998. O desemprego disparou e muitas empresas fecharam as portas. Para superar a crise, o governo implementou reformas estruturais, como a abertura do mercado financeiro e a reestruturação dos chaebols (grandes conglomerados familiares). No entanto, essas medidas também aumentaram a desigualdade e o endividamento das famílias.
Endividamento familiar recorde
Atualmente, a dívida das famílias sul-coreanas atingiu níveis recordes, superando 100% do PIB. Segundo dados do Banco da Coreia, o endividamento familiar chegou a 104,2% do PIB no primeiro trimestre de 2024, um dos maiores do mundo. Isso é reflexo, em parte, da bolha imobiliária e do crédito fácil que se seguiram à crise. Muitas famílias recorreram a empréstimos para adquirir imóveis, mas agora enfrentam dificuldades com o aumento das taxas de juros.
Baixo crescimento e desafios demográficos
Além do endividamento, a Coreia do Sul enfrenta um crescimento econômico anêmico. O PIB cresceu apenas 1,4% em 2023, e as projeções para 2024 são de crescimento em torno de 2%. A população está envelhecendo rapidamente, com a taxa de fertilidade mais baixa do mundo (0,72 filho por mulher em 2023). Isso pressiona o sistema de previdência e reduz a força de trabalho.
Impacto social e político
Os fantasmas da crise também se manifestam no descontentamento social. A geração mais jovem, conhecida como "geração dos 880 mil wons" (referência ao salário mínimo), enfrenta desemprego e subemprego. A desigualdade de renda aumentou, e muitos sul-coreanos culpam as políticas neoliberais adotadas após a crise. Esse descontentamento tem se refletido na política, com o fortalecimento de partidos populistas e a queda de popularidade do governo.
Lições para o futuro
Especialistas apontam que a Coreia do Sul precisa de novas reformas para lidar com esses desafios. "A crise de 1997 nos ensinou que a abertura financeira sem regulação adequada pode ser perigosa. Hoje, precisamos de políticas que promovam crescimento sustentável e inclusão social", afirmou Kim Sang-jo, economista do Instituto de Desenvolvimento da Coreia. O país também busca diversificar sua economia, investindo em tecnologia e inovação, mas os resultados ainda são incertos.



