Europa se ajusta a crise energética prolongada e crescimento fraco
Europa se ajusta a crise energética prolongada

Europa enfrenta crise energética prolongada e crescimento fraco

LONDRES — Quando a guerra começou no Oriente Médio e os preços da energia dispararam, a Europa se preparou para um choque econômico forte, porém breve. Mais de três meses depois, a região está se ajustando a um período de preços mais altos e crescimento mais fraco que pode durar muito mais do que o esperado.

Para a Europa, a recuperação após o último choque energético, ocorrido há apenas alguns anos, foi interrompida ainda em seus estágios iniciais. Agora, prevê-se que o impacto negativo na economia se estenda até o próximo ano, à medida que os custos mais elevados de energia drenam recursos dos orçamentos públicos, reduzindo investimentos em usos mais produtivos. Os consumidores, por sua vez, tendem a ficar cada vez mais receosos em relação aos gastos.

A invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, privou a Europa de uma fonte crucial de gás natural, e a inflação alcançou dois dígitos. As autoridades responderam elevando agressivamente os juros para conter a alta dos preços, mas isso também freou fortemente a economia.

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A preocupação atual é um impacto econômico mais sutil, mas ainda prejudicial: inflação e juros significativamente mais altos ao longo do próximo ano, no mínimo. “Um choque de curto prazo está se prolongando no tempo”, disse Mariano Cena, economista-chefe para a Europa no Barclays. Quanto mais durar a interrupção do fornecimento de energia proveniente do Golfo Pérsico, piores serão os efeitos, acrescentou.

Inicialmente, após as forças dos Estados Unidos e de Israel atacarem o Irã, e o Irã responder fechando o Estreito de Ormuz, a expectativa era de um impacto em formato de V, como os economistas descrevem: uma forte, porém breve, queda no crescimento, seguida por uma recuperação vigorosa, explicou Cena. Agora, o cenário se parece mais com um U, no qual a economia permanece enfraquecida por mais tempo e a recuperação ocorre de forma mais lenta. Recentemente, o Barclays reduziu pela metade sua projeção de crescimento para a Europa neste ano, para 0,7%, com apenas uma modesta aceleração para 0,9% no próximo ano.

Antes da guerra, Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, afirmava que os juros e a inflação, ambos em 2%, estavam em “uma boa posição”. Os mercados financeiros indicavam que os investidores não esperavam mudanças nas taxas ao longo de todo o ano. Agora, operadores apostam que o banco central elevará os juros nesta semana em um quarto de ponto percentual e voltará a aumentá-los mais adiante neste ano. Os mercados sinalizam que, até a próxima primavera no hemisfério norte, os juros estarão quase três quartos de ponto percentual acima dos níveis atuais.

O fechamento contínuo do estreito, uma via marítima fundamental para a exportação de energia, fertilizantes e outras commodities, provocou uma rápida aceleração da inflação. A taxa média nos 21 países que utilizam o euro chegou a 3,2% em maio, o nível mais alto desde setembro de 2023. Em fevereiro, antes da guerra, estava em 1,9%, ligeiramente abaixo da meta de 2% do Banco Central Europeu.

“O impacto do choque energético deve se estender até 2027”, afirmou recentemente a Comissão Europeia ao projetar que o crescimento econômico retornará apenas a um “modesto” 1,4% no próximo ano, enquanto a inflação deverá atingir 2,4%. Mesmo que os preços da energia tenham alcançado seu pico neste trimestre, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) afirmou na semana passada que espera uma inflação na zona do euro significativamente acima de 2% durante a maior parte do próximo ano, um patamar superior ao que projetava cerca de dois meses atrás.

Apesar das interrupções no abastecimento, a Europa ainda não enfrentou escassez de produtos, incluindo combustível de aviação. Em vez disso, a região está pagando muito mais caro por eles. Desde o fim de fevereiro, a União Europeia gastou 42 bilhões de euros adicionais (cerca de US$ 49 bilhões) com energia — aproximadamente metade desse valor apenas com gás natural. Preocupadas com o custo dos fertilizantes, as autoridades anunciaram um plano regional para apoiar os agricultores.

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À medida que os custos aumentam, a Comissão Europeia, braço executivo da União Europeia, formada por 27 países, flexibilizou as rígidas regras orçamentárias e concedeu aos governos nacionais alguma margem para gastar mais em medidas que “reduzam a dependência de combustíveis fósseis importados”.

Ainda assim, a desaceleração econômica será difícil de administrar para os governos. Os indicadores de confiança do consumidor estão nos níveis mais baixos desde 2022 e podem cair ainda mais, porque a inflação começa a superar o crescimento dos salários, pressionando os orçamentos familiares. Além disso, pesquisas mostram que os consumidores, diante de seu segundo choque de preços em menos de cinco anos, estão mais sensíveis e receosos da estagflação, a dolorosa combinação de preços elevados com crescimento econômico estagnado.

Parte do problema é que a reabertura do Estreito de Ormuz dificilmente fará os preços caírem rapidamente, segundo economistas. A oferta continuará apertada porque será necessário tempo para retomar a produção que se desacelerou ou foi interrompida desde o início da guerra, e parte da produção perdida levará muito tempo para ser substituída. Isso manterá os preços elevados, especialmente porque muitos países procuram ampliar suas reservas, afirmou Cena, do Barclays.

Os operadores esperam que os preços do petróleo e do gás recuem apenas moderadamente ao longo do próximo ano. Os contratos futuros do petróleo Brent, referência internacional, são negociados em torno de US$ 90 por barril para o fim deste ano e US$ 80 por barril para o fim do próximo. Antes da guerra, os preços estavam próximos de US$ 70 por barril. Os preços do gás natural seguem trajetória semelhante.

“Esses preços são altos, mas não extremos”, disse Alfred Arnborg, analista do Think Tank Europa, em Copenhague. Ainda assim, eles prejudicarão as economias que dependem de importação de energia.

Os governos estão “se preparando para uma crise prolongada”, afirmou Arnborg. Alguns estão estendendo medidas de alívio, como reduções de impostos sobre combustíveis, por um período maior neste ano. De modo geral, as autoridades se preparam para continuar financiando programas de ajuda e outros custos gerados pelos preços mais altos. Ele observou, por exemplo, que Portugal e Polônia planejam novos impostos extraordinários sobre empresas de energia.

“Você não criaria um imposto extraordinário se esperasse que isso terminasse amanhã”, disse Arnborg.