A cidade de Cumaná, no leste da Venezuela, enfrenta uma situação crítica com o colapso do abastecimento de água potável, apagões diários e a destruição de sua outrora próspera base industrial. A cidade, que já foi um polo industrial do país, agora tem a aparência de uma zona de guerra, com prédios saqueados e uma economia devastada.
Contraste com Caracas
Enquanto a capital Caracas começa a mostrar sinais de recuperação, com empresários petrolíferos e magnatas das criptomoedas buscando oportunidades após a deposição do ex-líder Nicolás Maduro, Cumaná conta uma história diferente. A cidade de meio milhão de habitantes sofre com os efeitos de décadas de má gestão econômica e políticas socialistas que levaram ao colapso industrial.
Em maio, uma viagem de carro pelo leste da Venezuela, passando por mais de 20 postos de controle militares e policiais, revelou as condições de vida fora da capital. José Luis Sánchez, presidente da Associação de Economistas de Cumaná, comparou a cidade a Kiev, na Ucrânia, devido aos danos generalizados, mas ressaltou que não foram bombardeios que causaram a devastação, mas sim o domínio de um único partido e a gestão econômica desastrosa.
Declínio industrial
Quando Hugo Chávez chegou ao poder, há 27 anos, Cumaná era um centro da indústria pesqueira e de conservas, processando atum e sardinhas para toda a América do Sul. Os estaleiros prosperavam, e a cidade abrigava uma fábrica da Toyota que produzia os lendários Land Cruisers. No entanto, a onda de estatizações iniciada por Chávez privou a indústria de capital privado e levou ao fechamento de fábricas. A falta de latas metálicas, devido à queda da produção em outras estatais, agravou a situação. Muitas fábricas de conservas agora operam com dificuldade ou estão abandonadas.
A fábrica da Toyota, paralisada por greves e impasses sindicais, reduziu suas operações gradualmente até fechar, juntamente com todo o ecossistema de fornecedores locais. Com o setor manufatureiro destruído, Cumaná depende agora do governo para atender às necessidades básicas.
Crise hídrica e energética
Em fevereiro, um deslizamento de rochas no túnel do reservatório que abastece a cidade provocou o colapso do sistema de abastecimento de água. Incapazes de resolver o problema, as autoridades implementaram um rigoroso racionamento. Caminhões-pipa trazem água, mas a demanda é alta e os preços dispararam. Um galão de 20 litros pode custar até US$ 8, um valor significativo para famílias que sobrevivem com baixos salários e um auxílio mensal de US$ 240.
Yamileth Sotillo, empregada doméstica, disse que esperava melhorias após a captura de Maduro, mas a crise da água piorou a situação. Moradores temem represálias dos líderes do Conselho Comunal, que monitoram conversas e redes sociais e podem restringir benefícios.
Além da água, a energia elétrica é interrompida por várias horas quase todos os dias. Shoppings como o Hipergalerías ficam às escuras, com escadas rolantes paradas e lojas fechadas. Taís Mago, gerente de um restaurante, disse que os apagões são terríveis para os negócios.
Educação em ruínas
Outro símbolo trágico é o campus da Universidad de Oriente, que antes atendia mais de 15 mil estudantes. Após se tornar um centro de protestos, autoridades permitiram saques que levaram fiação, ar-condicionado e tubulações. Livros foram queimados, destruindo milhares de volumes da Biblioteca Central. Hoje, apenas cerca de 2 mil alunos estudam em estruturas improvisadas.
Em um lixão a céu aberto, idosos procuram comida e recicláveis. Pichações pró-governo ainda cobrem muros, com slogans como “O turismo é a arma secreta do novo modelo econômico da Venezuela”. Apesar da crise, o governo tenta manter o controle, mas a realidade em Cumaná é de desolação e falta de perspectivas.



