Brasil pode ficar fora de novo ciclo de fluxos por falta de 'história de IA', diz EPFR
Brasil pode ficar fora de ciclo de fluxos por falta de 'história de IA'

A rotação de recursos financeiros alocados em ativos em dólar em direção aos mercados emergentes, que marcou um ingresso expressivo de estrangeiros na Bolsa brasileira no início do ano, tende a ser retomada no ano que vem, mas o Brasil pode ficar de fora desse novo ciclo, segundo Cameron Brandt, diretor de pesquisa da EPFR, um dos principais provedores de dados sobre fluxos globais de capitais. Para ele, atrair recursos agora depende dos desdobramentos das eleições presidenciais e de sinalizações sobre as perspectivas de um ajuste fiscal.

Eleições e ajuste fiscal como chave para atrair capital

“Se os investidores acharem que o Brasil sai das eleições com uma história de reforma fiscal crível, você verá muito dinheiro entrando”, afirma Brandt em conversa com a Coluna. O especialista, que acompanha o destino do dinheiro que circula entre fundos de ações e de dívida há 30 anos, destaca que a Inteligência Artificial é “de longe” o tema que mais movimenta os fluxos de recursos no mundo este ano entre as bolsas, mesmo com o conflito no Oriente Médio ganhando protagonismo nos mercados.

Até agora, os investidores que apostam na IA estão colocando seu dinheiro em mercados acionários dos Estados Unidos, Taiwan e Coreia do Sul. “Uma quantidade desproporcional do dinheiro está indo para os que são vistos como os inovadores na história da IA e outros países estão sofrendo por causa disso”, explica Brandt. O Brasil, segundo ele, foi perdendo terreno por não ter uma “história de IA para contar”.

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Fluxos concentrados em inovadores de IA

Para ativos de tecnologia norte-americanos foram direcionados US$ 118 bilhões em recursos no acumulado deste ano, seguido por Coreia do Sul (US$ 28 bilhões) e Taiwan (US$ 16 bilhões). A China, acrescenta Brandt, é o maior mercado perdendo recursos para o tema, especialmente em tecnologia e ações domésticas. Além do Brasil, a Índia, sempre considerada um polo de tecnologia, também não é beneficiada pelo expressivo interesse dos investimentos em IA, uma vez que segue confinada a programas de backoffice.

Brandt vê a história da IA perdendo força pela constatação dos investidores quanto às “restrições físicas” dessa indústria, como energia e água, necessários em abundância nos data centers. “A rede elétrica dos Estados Unidos, francamente, não acho que esteja apta para lidar com esse tipo de aumento na demanda”, afirma. Ele acrescenta que há ainda uma pressão global pela geração de energia “verde”, o que não é necessariamente simples, já que alternativas como a solar não são fontes perenes. Brandt também comenta sobre as dificuldades das empresas de IA em encontrar profissionais qualificados. “Então, espero que as asas desse segmento comecem a ser cortadas um pouco em 2027”, diz.

Guerra e impacto nos fluxos

Paralelamente à IA, a guerra tem sido outro motor dos fluxos, beneficiando o Brasil e outros países produtores fora do eixo do conflito, mas perdeu força à medida que os investidores traçaram uma linha para a trajetória de longo prazo dos preços da energia mais próxima à anterior ao início do conflito.

Se a história sobre atração de recursos para a Bolsa brasileira não entusiasma, para o mercado de títulos de dívida é um pouco diferente. “A dívida soberana brasileira local e externa é definitivamente popular neste momento”, conta Brandt. Segundo ele, a taxa de juro básica “consistentemente alta” e a “narrativa” de que a moeda brasileira será respaldada pelas taxas de juros e pelo preço das commodities dão sustentação ao interesse pela dívida brasileira. “Se você é um investidor que não quer todos os seus ovos em uma cesta só, o Brasil é certamente um mercado”, afirma.

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