O Brasil voltou a perder espaço no Ranking Mundial de Competitividade e caiu sete posições em 2026, do 58º lugar despencou para o 65º entre 70 nações avaliadas pelo Institute for Management Development (IMD), em parceria com a Fundação Dom Cabral (FDC). Embora o País tenha apresentado bom desempenho em indicadores como atração de investimento estrangeiro, geração de empregos, empreendedorismo e produção de energia renovável, os resultados sugerem que o País não conseguiu avançar nas áreas consideradas fundamentais para a competitividade de uma nação.
Educação e produtividade: os principais gargalos
A piora cascateou na educação primária e secundária, na produtividade da força de trabalho, na qualificação profissional e no custo de capital. Na avaliação do diretor do Núcleo de Inovação, IA e Tecnologias Digitais da Fundação Dom Cabral, Hugo Tadeu, o Brasil não está conseguindo equilibrar esses quatro elementos. “O País tem uma agenda significativa para a educação básica e secundária. Há muita coisa para ser desenvolvida. Ainda não conseguimos fazer a transferência do conhecimento para a economia na velocidade necessária”, observa.
Em relação aos baixos níveis de produtividade, Tadeu alerta que a lacuna não deve ser entendida apenas como a capacidade de produzir mais com menos recursos. O conceito envolve a Produtividade Total dos Fatores (PTF), que mede a eficiência com que uma economia alcança capital, tecnologia, inovação e qualificação profissional para gerar riqueza. Com isso, o Brasil ainda enfrenta dificuldades para transformar investimentos e conhecimento em ganhos de produtividade, uma das razões por trás do baixo desempenho em indicadores de educação, qualificação da mão de obra e competitividade empresarial.
No quesito eficiência dos negócios, por exemplo, recuou 11 posições, já em performance econômica caiu seis posições. O País figura na última posição mundial em educação primária e secundária, habilidades linguísticas, habilidades financeiras e produtividade da força de trabalho.
Ambiente jurídico confuso e custo de capital
O quesito capital também é um dos fatores que explicam o desempenho aquém do País. O levantamento aponta que o País ocupa o último lugar no indicador de débito corporativo. Para o especialista, porém, os juros elevados são um sintoma, mas não se trata da causa. “Temos um ambiente jurídico confuso, incertezas regulatórias e um custo alto para fazer negócios no Brasil”, afirma.
Neste ano, a inadimplência empresarial atingiu um novo recorde, com 9 milhões de CNPJs negativados. Segundo dados da Serasa Experian, o número de empresas inadimplentes aumentou em 1,5 milhão em relação ao mesmo período do ano anterior. É o maior nível da série histórica iniciada em janeiro de 2016, conforme mostrou o Estadão/Broadcast. Embora exista disponibilidade de recursos, uma fatia considerável é direcionada ao financiamento do setor público, enquanto as empresas enfrentam elevados níveis de endividamento e custos financeiros, avalia Hugo Tadeu. “O Brasil tem muito dinheiro, mas está sendo canalizado para o governo. Na perspectiva das empresas, o endividamento corporativo está muito alto.”
Eficiência governamental e qualidade do gasto público
O Brasil ainda apresentou fragilidade em eficiência governamental, ficando na última posição global. O resultado, avalia Hugo Tadeu, é reflexo da qualidade do gasto público. “A questão não é apenas quanto se gasta, mas como se gasta. Quando o custo do dinheiro aumenta, sobra menos espaço para investimentos em saúde, educação e bem-estar, são as áreas nas quais os países mais competitivos continuam investindo”, aponta o especialista.
Ele acrescenta que a melhora da competitividade brasileira depende da transferência de conhecimento em termos de geração de riqueza, na redução de custos para se fazer negócios no Brasil e no investimento em todos os níveis da educação com foco na matriz curricular e remuneração dos docentes.
Pontos fortes e perspectivas
Apesar dos desafios, o especialista destaca que o cenário não representa uma situação de colapso. “Não é uma terra arrasada. Estamos falando de um país gigantesco, com oportunidades relevantes em energias limpas e diversos setores, como o siderúrgico, que operam em padrão internacional”, pondera. Entre os pontos fortes do País, houve melhora na capacidade de atrair investimentos, geração de empregos, empreendedorismo e sustentabilidade. No entanto, o ambiente jurídico “confuso”, a insegurança regulatória e as incertezas econômicas impedem um crescimento mais acentuado da competitividade brasileira. A principal medida no longo prazo é elevar a capacidade de renda da população, estima Hugo Tadeu. “O Brasil ainda não consegue ultrapassar um determinado patamar e continua convivendo com uma desigualdade elevada. Os países que avançaram na competitividade fizeram isso investindo em qualificação, produtividade e formação de pessoas”, afirma.



