Brasil se torna 2º país mais tarifado pelos EUA, atrás da China
Brasil é 2º país mais tarifado pelos EUA, atrás da China

O Brasil vai passar a ser o segundo país mais tarifado pelos Estados Unidos, atrás apenas da China. A investigação comercial dos Estados Unidos analisou seis temas: comércio digital e serviços de pagamento, incluindo o PIX; acordos tarifários; combate à corrupção; propriedade intelectual; mercado de etanol; e desmatamento ilegal.

Tarifa média sobe para 18,2%

A Global Trade Alert, iniciativa suíça sem fins lucrativos, calcula que a tarifa efetiva média sobre todas as exportações do Brasil para os Estados Unidos vai subir de 11,7% para 18,2%. Assim, o Brasil passa a ser o segundo país com maiores tarifas do governo americano. A China lidera a lista, com tarifa média de 27%.

Por que o Brasil foi alvo?

O ex-secretário de Comércio Exterior Welber Oliveira Barral afirma que parte da explicação está na falta de negociação. “Os Estados Unidos, desde o ano passado, primeiro tiveram intervenção política no processo interno brasileiro, que acabou vendo que não daria resultado com relação à suposta anistia. Depois disso, os Estados Unidos tentaram várias negociações com outros países e conseguiram, como foi o caso da Argentina, em que conseguiram acesso a minerais críticos, conseguiram acesso ao mercado digital. Conseguiram vários temas que o Brasil sequer pode negociar. E essa resistência brasileira acabou levando à aplicação dessas medidas”, disse Barral.

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O ex-secretário afirma que, mesmo em áreas em que o governo brasileiro está disposto a negociar, como a de minerais críticos, há limites legais. “Há uma incompreensão nos Estados Unidos sobre o Brasil, inclusive sobre como o Brasil funciona e qual é, por exemplo, a grande autonomia que o Judiciário e o Legislativo brasileiros têm. Então, ao mesmo tempo, há um desconhecimento sobre o que o Brasil pode negociar, porque alguns dos pedidos americanos, por exemplo, em minerais críticos, são inconstitucionais”, diz Welber Barral.

Visão de especialistas sobre as tarifas

O professor de Relações Internacionais Oliver Stuenkel afirma que o governo Trump não enxerga benefícios no livre comércio e que as medidas são consequência disso. “O governo Trump, no fundo, acredita que o livre comércio ou a abertura econômica trouxe uma desvantagem para a economia americana. O Brasil é um dos países que agora, por meio dessa investigação, foi atingido, mas haverá vários outros países, ou vários países, inclusive, estão em meio a negociações com os Estados Unidos para lidar com as tarifas que foram aplicadas pelo governo Trump”, diz Oliver Stuenkel, professor associado de Relações Internacionais da FGV.

O Brasil não é o único país a ter um sistema de pagamentos instantâneos, mas os Estados Unidos temem que o PIX implique em perda da influência americana. “Além de um avanço tecnológico que facilita a vida do consumidor, também é uma forma de ganhar autonomia em um ambiente geopoliticamente instável, em que a relação com os Estados Unidos hoje é muito menos previsível do que era antes. Então a resposta americana, a crítica dos Estados Unidos em relação a essas plataformas, também é reflexo de um mundo em que os Estados Unidos, aos poucos, vêm perdendo influência, já que países optam por comandar e controlar os seus próprios sistemas de pagamento e, assim, reduzir sua vulnerabilidade estratégica nessa área”, afirma Oliver Stuenkel.

Negociação como caminho

O embaixador e ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio Roberto Azevêdo afirma que o governo Trump quer concessões e aponta para a negociação. “É um pretexto para aplicar a tarifa que já estava decidida, que ia ser aplicada de toda forma. A questão é como você mitiga isso. O que você tem que fazer para reverter esse quadro? Minha percepção é que não vai ser respondendo àquelas preocupações da administração do PIX ou o que quer seja. Não vai ser isso que vai resolver. O que vai resolver é atender e encontrar uma maneira de negociar temas de interesse estratégico dos Estados Unidos”, conclui Azevêdo.

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