BC lança duplicata escritural e pode destravar R$ 11 tri em crédito para empresas
BC lança duplicata escritural: R$ 11 tri em crédito

O Banco Central lança nesta terça-feira (30) o ecossistema da duplicata escritural, uma inovação que promete revolucionar o crédito empresarial no Brasil, com potencial para destravar cerca de R$ 11 trilhões em recursos. A primeira fase de produção assistida começa em julho, alterando profundamente a forma como as empresas obtêm capital de giro, negociam recebíveis e acessam financiamento.

Mercado de duplicatas: de R$ 13 trilhões para uso efetivo

Atualmente, estima-se que o mercado brasileiro gere entre R$ 10 trilhões e R$ 13 trilhões anuais em duplicatas, mas apenas 10% a 15% desse volume é utilizado como garantia para operações de crédito. A digitalização integral desses títulos deve transformar recebíveis em ativos mais seguros, transparentes e negociáveis, ampliando a oferta de crédito e reduzindo custos para empresas de todos os portes.

Implantação gradual e obrigatoriedade a partir de 2027

A etapa inicial testará a infraestrutura tecnológica do novo modelo. A obrigatoriedade será implantada gradualmente a partir de junho de 2027, começando pelas grandes empresas, avançando para médias em dezembro de 2027 e chegando às pequenas em junho de 2028.

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“A duplicata escritural representa a maior transformação nos títulos de crédito mercantil desde a criação da própria duplicata, em 1936”, afirma Clodoaldo Pontes, vice-presidente executivo de Negócios e Comercial da Evertec Brasil.

Fim do papel: rastreabilidade e segurança jurídica

Na prática, a duplicata deixa de ser um documento físico para se tornar um registro eletrônico em entidades autorizadas pelo Banco Central, acompanhado durante todo o seu ciclo de vida. Emissão, aceite, cessão, antecipação e liquidação passam a ser rastreados eletronicamente, eliminando problemas históricos como falta de clareza, padronização e insegurança jurídica.

“O que antes era apenas um documento mercantil entre comprador e fornecedor passa a ter valor financeiro, porque é totalmente rastreável, único e autenticado, podendo servir como lastro para operações de crédito”, explica Edson Silva, fundador e presidente da Nexxera.

Fernando Fontes, CEO da CERC, complementa: “A duplicata deixa de ser um documento sujeito a extravio e duplicidade e passa a nascer, circular e ser liquidada inteiramente em meio digital, com registro único e rastreável.”

Roberta Ferraz, sócia e diretora de Novos Negócios na Fintech Monkey, destaca que a padronização digital elimina riscos de fraude: “Como tudo é digital, a informação é padronizada para que todos os participantes tenham acesso ao mesmo dado, sem riscos de fraude, dando maior garantia a quem quer financiar as empresas.”

Ampliação do crédito e redução de custos

Pesquisa da Núclea em parceria com o IBPad e a consultoria Môre mostra que 88% das instituições financeiras acreditam que o novo modelo aumentará a oferta de crédito. Para 63%, o principal indicador de sucesso será a expansão do crédito, enquanto 41% apostam na redução do custo das operações.

Segundo Rodrigo Furiato, vice-presidente de Negócios da Núclea, “existe uma expectativa muito clara de aumento de eficiência, competição e circulação de crédito”.

A Evertec estima que a migração para o modelo escritural poderá reduzir o custo do capital de giro entre 0,3 e 0,8 ponto percentual ao mês para empresas que usam antecipação de recebíveis.

Pequenas e médias empresas: as maiores beneficiadas

Para PMEs, o impacto pode ser ainda maior. Dados da Núclea mostram que empresas com faturamento de até R$ 200 mil aumentaram em 49% a quantidade de operações com duplicatas entre 2024 e 2025, enquanto o valor financeiro movimentado cresceu 125%.

“Historicamente, uma PME tinha acesso restrito ao mercado de capitais. Com a escritural, um recebível bem registrado passa a ser um ativo confiável para bancos, fintechs e fundos”, afirma Clodoaldo Pontes.

Magno Lima, CEO da SPC Grafeno, acredita que a mudança pode transformar a relação do empresário com o crédito: “Hoje muitas empresas buscam crédito apenas para resolver problemas de fluxo de caixa. A duplicata escritural pode transformar o crédito em uma ferramenta efetiva para crescimento, expansão e investimento.”

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Redução de fraudes históricas

A duplicata escritural busca eliminar fraudes como a “duplicata fria” (emitida sem lastro) e a cessão simultânea do mesmo recebível a diferentes financiadores. O registro centralizado e a interoperabilidade obrigatória entre registradoras garantem a unicidade e legitimidade dos recebíveis.

“A rastreabilidade integral reduz drasticamente o risco de duplicidade e aumenta a confiança dos financiadores”, afirma Pontes.

Desafios tecnológicos e operacionais

A implantação, no entanto, não é simples. Embora 82% das instituições financeiras já possuam estratégias estruturadas, a preparação das empresas avança lentamente. O novo modelo exige integração entre ERPs, plataformas financeiras, escrituradoras, registradoras e instituições financeiras.

Grandes empresas com milhares de fornecedores precisarão administrar manifestações eletrônicas, aceitar ou rejeitar duplicatas e controlar pagamentos. “Existe uma preocupação legítima com a execução operacional da transição. A interoperabilidade e a coordenação entre participantes serão fundamentais para garantir confiança no sistema”, afirma Rodrigo Furiato.

O 'Pix do crédito'?

A comparação com o Pix é frequente, mas com diferenças: enquanto o Pix transformou pagamentos, a duplicata escritural remodela a infraestrutura de crédito corporativo. Para Leandro Vilain, CEO da ABBC, “a duplicata escritural não representa apenas uma atualização normativa. Ela inaugura uma nova forma de financiar o Brasil que produz, inova e empreende.”

Se a promessa de destravar um mercado de R$ 11 trilhões se confirmar, a transformação poderá redefinir a relação entre empresas e crédito, criando um ambiente mais transparente, competitivo e acessível. O desafio será fazer a tecnologia avançar na mesma velocidade da ambição regulatória.