Os Estados Unidos possuem mais de 3.000 centros de dados em operação e mais de 1.500 em desenvolvimento, segundo análise do Centro de Pesquisas Pew. Enquanto gigantes da tecnologia correm para construir infraestrutura de inteligência artificial, moradores que vivem próximos a essas instalações afirmam que uma vibração constante de baixa frequência está prejudicando sua saúde e seus lares.
Ruído industrial disfarçado de progresso
O ruído gerado pelos sistemas de resfriamento dos data centers não se assemelha ao barulho de festas ou trânsito. Trata-se de um infrassom de baixa frequência, muitas vezes imperceptível ao ouvido humano, mas que provoca efeitos físicos e psicológicos. Relatos de insônia, dores de cabeça, fadiga e zumbido no ouvido são comuns entre residentes de cidades como Northern Virginia, epicentro mundial da indústria de data centers.
“É como se houvesse um motor de caminhão ligado 24 horas por dia dentro da sua casa”, disse um morador em depoimento a um processo judicial. “Você não consegue dormir, não consegue se concentrar. A vibração passa pelas paredes.”
Processos judiciais e lacuna legal
Diversos processos foram abertos nos EUA exigindo indenizações e medidas de controle de ruído. A legislação atual, no entanto, foi desenhada para lidar com ruídos de festas e eventos, não com poluição sonora industrial de baixa frequência. Isso cria uma lacuna legal que dificulta a responsabilização das empresas.
“As leis de ruído municipais geralmente medem decibéis em frequências audíveis, mas o infrassom passa despercebido”, explicou um especialista em acústica consultado pelo Valor. “Precisamos de novos padrões regulatórios.”
Refrigeração líquida como solução, mas com custo alto
As empresas de tecnologia buscam alternativas para mitigar o problema. A refrigeração líquida, que substitui os ventiladores tradicionais por sistemas de resfriamento a líquido, reduz significativamente o ruído. Porém, o custo de implementação é elevado, e a maioria dos data centers ainda opera com sistemas de ar forçado.
Enquanto isso, moradores continuam sofrendo. “Não somos contra a tecnologia, mas queremos que ela não nos adoeça”, afirmou uma residente da Virgínia. “O progresso não pode ter esse preço.”
Impacto na saúde e no mercado imobiliário
Além dos problemas de saúde, a poluição sonora afeta o valor dos imóveis nas proximidades. Casas que antes valiam centenas de milhares de dólares perderam valor de mercado. “É um custo invisível que recai sobre as famílias”, destacou um advogado que representa os moradores.
Com a expansão acelerada da IA, o número de data centers deve crescer ainda mais. A pressão por soluções regulatórias e tecnológicas se intensifica, enquanto comunidades lutam por silêncio e qualidade de vida.



