A professora aposentada Eliane Carvalho, de 63 anos, transformou sua trajetória de repressão em um símbolo de resistência. Homenageada na 23ª Parada do Orgulho LGBTQIAPN+ de Mato Grosso, realizada no último sábado (27), ela relata os desafios de crescer como mulher lésbica nos anos 1960, marcados por tentativas de enquadramento e discriminação dentro e fora da família.
Infância marcada por perdas e repressão
Filha caçula de uma família nordestina com quatro irmãos, Eliane perdeu a mãe aos 5 anos e foi criada pelo pai. Por não corresponder às expectativas familiares, na adolescência foi enviada para um internato religioso, onde deveria aprender os chamados “modos de moça”. “Diziam que era para aprender modos de moça, porque eu parecia macho… então dá para imaginar o cenário familiar”, afirmou ao g1.
Segundo Eliane, assumir-se lésbica naquela época significava enfrentar o medo constante de discriminação e o peso do preconceito. “Ser chamada de sapatão na minha era uma vergonha para a família. A gente acabava se escondendo para não sofrer as consequências de ser apontada e discriminada”, recorda.
Luta coletiva e fortalecimento
Ela encontrou nos movimentos sociais, nas paradas do orgulho e nas vivências políticas da comunidade LGBTQIAPN+ um espaço de fortalecimento. “A minha trajetória é significativa porque lutamos o tempo todo para romper barreiras e abrir caminhos para as que estão vindo depois de nós. […] ainda estamos aqui, e não somos poucas”, afirmou.
Para Eliane, o avanço é visível: “Hoje podemos presenciar meninas novas já se posicionando. São meninas fincando a bandeira num solo firme mesmo, mostrando que estão ali, que precisam ser ouvidas, compreendidas e respeitadas como tal, e isso é maravilhoso”.
Envelhecer com orgulho: tema da parada
A trajetória de Eliane se conecta diretamente ao tema do evento deste ano: “Envelhecer com Orgulho: Democracia, Resistência e Memória”. Para ela, chegar aos 63 anos “continuando a existir” é resultado de resistência. “Hoje tenho 63 anos e ainda continuo existindo. Ser quem sou sem ter que dar satisfações a ninguém: ser feliz, resistindo! Envelhecer com orgulho é mostrar que sobrevivemos e que merecemos respeito em todas as fases da vida”, disse.
Ela destaca a importância de políticas públicas para a população LGBTQIAPN+ idosa: “Não adianta quererem nos esconder. É fundamental ter políticas públicas que sejam ativas, que funcionem de fato para os cuidados deste público que muito contribuem para o andamento deste país enquanto pessoas que têm um RG, um CPF, e um título eleitoral e que trabalham, criando e participando das decisões de tudo o que nos cerca”.
Dados do IBGE sobre orientação sexual
Pesquisa do IBGE em parceria com o Ministério da Saúde, em 2019, marcou o primeiro levantamento oficial no Brasil a considerar a orientação sexual autoidentificada. Em Mato Grosso, cerca de 35,9 mil pessoas com 18 anos ou mais se declararam homossexuais ou bissexuais, o que representa aproximadamente 1,4% da população adulta do estado, estimada em 2,51 milhões. A maioria (96,9%) se declarou heterossexual, enquanto 36,4 mil não responderam ou afirmaram não saber a própria orientação sexual.
23ª Parada do Orgulho LGBTQIAPN+ de Mato Grosso
O evento, um dos principais do estado na pauta de direitos humanos e diversidade, contou com atividades culturais, políticas e artísticas, além do show nacional da cantora Tati Quebra Barraco no encerramento. A edição ampliou o debate sobre direitos da população LGBTQIAPN+ ao longo da vida, valorizando a história do movimento no estado.



