PM acusa diretora de impor ideologia ao explicar atividade sobre cultura afro
PM acusa diretora de impor ideologia em escola de SP

Um tenente da Polícia Militar entrou armado na EMEI Antônio Bento, na Zona Oeste de São Paulo, e acusou a então diretora interina de tentar "impor sua ideologia" ao explicar uma atividade pedagógica sobre cultura afro-brasileira. O episódio, ocorrido em novembro de 2023, foi registrado por câmeras corporais e obtido pelo g1.

Contexto da ocorrência

O caso teve início quando o pai de uma aluna de 4 anos, que é soldado da PM, acionou a polícia após a filha levar para casa um desenho de Iansã, orixá presente em religiões de matriz africana como Candomblé e Umbanda. O homem alegou que a escola estaria obrigando a criança a ter "aula de religião africana".

A diretora, que prefere não ser identificada, explica que a atividade fazia parte de um projeto pedagógico baseado nas leis federais 10.639 e 11.645, que determinam o ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena nas escolas. "O que a gente tem aqui na escola é o ensino da cultura afro-brasileira, um projeto referendado a partir dos documentos da prefeitura", disse ela nas imagens.

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Abordagem policial e reação da diretora

Nas gravações, o tenente Ronald Camacho, comandante da equipe, contesta a explicação e afirma que o conteúdo tinha caráter religioso. "Como não? Eu vi um desenho que está escrito Iansã", diz o policial. A diretora responde que o agente viu apenas parte da atividade e que o trabalho foi desenvolvido a partir do livro infantil "Ciranda de Aruanda", integrante do acervo da rede municipal, que aborda a mitologia dos orixás em perspectiva cultural e literária.

A educadora critica a postura do tenente: "Na falta de saber o que fazer, quando eu apresentei os argumentos, ele usou uma narrativa impositiva e machista. Ele levantou o tom de voz comigo e com a servidora que estava ao meu lado. Na falta de conhecimento, foi fazendo uso de um repertório de força para tentar deslegitimar aquilo que eu estava dizendo". Ela também questiona a entrada de policiais armados, incluindo um fuzil, em uma escola de educação infantil. "Que perigo será que eu ou as crianças da escola estávamos oferecendo?"

Intervenção da supervisora de ensino

Minutos depois, a diretora telefona para uma supervisora da Diretoria Regional de Educação do Butantã e coloca a ligação no viva-voz. Durante o diálogo, a supervisora questiona se o caso configura intolerância religiosa ou apenas discordância pedagógica. O tenente informa que a equipe foi acionada por denúncia de intolerância religiosa e afirma não ter conhecimento técnico para avaliar a questão educacional. A supervisora rebate: "Isso é uma tratativa pedagógica. Isso é uma discussão pedagógica".

Ela ainda esclarece que intolerância religiosa ocorre quando há desrespeito a uma religião, não quando uma família discorda de uma atividade pedagógica. O tenente, por sua vez, afirma buscar neutralidade: "A escola tem uma defesa, seus princípios e ensinamentos, da construção socioeducacional da criança. O pai tem uma opinião dele. Estou tentando ouvir".

Impactos e investigação

Após o episódio, a diretora desenvolveu sintomas de estresse pós-traumático, precisou se afastar do trabalho e fazer acompanhamento psicológico. O filho dela, que presenciou a discussão e também estudava na escola, passou a ter medo de policiais e teve uma crise nervosa ao encontrar agentes na unidade.

A educadora defende que corporações públicas invistam na formação de seus servidores sobre diversidade, liberdade religiosa e educação antirracista para evitar episódios semelhantes. "A escola não é uma extensão da minha religião, da minha igreja. Existe uma democracia, uma liberdade religiosa e, independentemente da religião que eu tenha, meu procedimento não deveria passar pela minha crença pessoal", afirma.

A atuação dos policiais e as imagens das câmeras corporais estão sob investigação por meio de um Inquérito Policial Militar, segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP). O pai que acionou a PM foi indiciado por intolerância religiosa.

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