Afukaka Kuikuro, uma das principais lideranças do povo Kuikuro e do Alto Xingu, morreu nesta segunda-feira (15). Nascido em uma tradicional linhagem de chefes, ele dedicou a vida à defesa da cultura indígena, à preservação das tradições e ao fortalecimento do diálogo com a sociedade não indígena.
Trajetória de liderança
Neto de um cacique homônimo e filho de Almar, reconhecido líder e grande lutador, Afukaka perdeu o pai ainda na infância. Mesmo não sendo o primeiro na linha de sucessão, conquistou respeito por sua habilidade como lutador e pela atuação em favor do povo. Considerado um dos maiores campeões de luta dos Kuikuro, assumiu responsabilidades crescentes até se tornar cacique.
Diálogo e preservação cultural
Ao longo da vida, Afukaka teve papel crucial na aproximação entre os povos do Alto Xingu e a sociedade não indígena, defendendo o diálogo sem abrir mão da cultura, costumes e rituais tradicionais. Representou os povos do Alto Xingu internacionalmente, tornando-se voz na defesa dos territórios e direitos indígenas. Participou de pesquisas sobre o território kuikuro e foi um dos primeiros indígenas a assinar um artigo científico na revista Science.
Recebeu pesquisadores, artistas e autoridades, como o fotógrafo Sebastião Salgado, com quem manteve amizade e visitou a França. A partir dos anos 2000, iniciou com o antropólogo Carlos Fausto o registro dos cantos rituais kuikuro, projeto que por mais de uma década preservou conhecimentos tradicionais.
Família e tradição
Criado pela mãe e tia-avó materna após a perda do pai, Afukaka formou grande família ao se casar com duas irmãs. O filho mais velho, sucessor na liderança, morreu antes de concluir a reclusão ritual, passando a chefia ao filho mais novo, Amuneri. Nos últimos anos, devido a problemas de saúde agravados após contrair Covid-19, viveu mais recolhido na aldeia, ao lado da família e comunidade.
“Seu legado permanece vivo na força de sua liderança, na preservação da cultura kuikuro e no exemplo de dedicação ao seu povo. Sua história continuará inspirando as futuras gerações”, declarou o neto do cacique.
Repercussão
A morte do líder teve grande repercussão. O Instituto Raoni lamentou a perda, destacando sua atuação na defesa do território, floresta, cultura e direitos indígenas. “Sua partida representa uma perda imensurável para o povo Kuikuro, para os povos do Xingu e para todo o movimento indígena brasileiro. Permanecem sua palavra, ensinamentos e o exemplo de vida dedicada à coletividade”, afirmou. A Federação dos Povos e Organizações Indígenas de Mato Grosso (Fepoimt) e a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira também manifestaram solidariedade.



