Freira de Ribeirão Preto torturada pela ditadura militar
Freira de Ribeirão Preto torturada pela ditadura

A história da ditadura militar no Brasil tem um dos capítulos mais marcantes em Ribeirão Preto (SP) e uma das figuras mais importantes, também: Madre Maurina Borges da Silveira. Ela viveu no Lar Santana, no bairro Campos Elíseos, e teve a vida transformada após ser presa pelo regime em 1969, acusada de colaborar com grupos de oposição.

Esta reportagem faz parte da série 'Histórias Escondidas', uma produção especial da EPTV, afiliada da TV Globo, para celebrar os 170 anos de Ribeirão Preto, comemorados em 19 de junho. Curiosidades, personagens marcantes e fatos que pouca gente conhece ajudam a entender a trajetória de uma das cidades mais importantes do estado de São Paulo.

Quem foi Madre Maurina

Natural de Minas Gerais e religiosa da Congregação das Irmãs Franciscanas da Imaculada Conceição, Maurina chegou a Ribeirão Preto para dirigir o Lar Santana em 1969. Durante os anos mais duros da ditadura militar, jovens ligados à resistência utilizavam uma sala do Lar Santana para produzir jornais clandestinos e realizar reuniões políticas.

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Segundo relatos da época registrados na pesquisa 'Versões de Maurina: a trajetória de Maurina Borges da Silveira em narrativas literárias', Madre Maurina tinha conhecimento das atividades ligadas à produção de jornais, mas não da atuação armada de integrantes da organização Forças Armadas de Libertação Nacional (FALN).

Em novembro de 1969, após a prisão de integrantes do grupo, a freira foi detida por agentes da repressão. Acusada de subversão, ela passou a responder por suposta colaboração com organizações consideradas inimigas do regime.

Tortura e repercussão nacional

Durante o período em que esteve presa na Penitenciária de Tremembé, Madre Maurina denunciou ter sido submetida a sessões de tortura física e psicológica. Em cartas e depoimentos concedidos anos depois, a religiosa relatou choques elétricos, ameaças, humilhações e assédio durante os interrogatórios realizados por agentes da repressão.

A repercussão do caso levou a Igreja Católica a se posicionar publicamente. Em Ribeirão Preto, o então arcebispo Dom Felício da Cunha Vasconcelos excomungou dois delegados apontados como responsáveis pelas torturas sofridas pela freira. O episódio é considerado um marco na mudança de postura de setores da Igreja Católica em relação ao regime militar, que passou a ser denunciado por violações aos direitos humanos.

Em 1970, Madre Maurina foi incluída na lista de presos políticos libertados em troca do cônsul japonês Nobuo Okuchi, sequestrado por grupos de resistência armada. A religiosa foi enviada para o México e permaneceu no exílio durante 14 anos. Ela retornou ao Brasil em 1979 para acompanhar o processo que resultou na absolvição por falta de provas. O retorno definitivo aconteceu em 1984, quando retomou a vida religiosa, onde seguiu até a morte, em 2011, aos 84 anos.

Lar Santana

Mais de dez anos após ser desativado, o Lar Santana apresenta sinais de abandono atualmente. Salas, corredores e áreas externas sofrem com a deterioração causada pelo tempo. Apesar disso, o imóvel continua sendo um dos principais símbolos da memória da ditadura militar em Ribeirão Preto.

Recentemente, o prédio foi ocupado por grupos que defendem a preservação da história dos perseguidos políticos. A proposta é transformar o antigo orfanato em um espaço de memória dedicado às vítimas da repressão e à trajetória de Madre Maurina.

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