Etarismo: o preconceito silencioso que atinge todos que envelhecem
Etarismo: preconceito silencioso contra idosos

Há quase seis décadas, o escritor argentino Adolfo Bioy Casares publicou Diario de la guerra del cerdo, uma obra inquietante e desconfortável. Em uma sociedade dominada pelo culto à juventude, pessoas idosas passam a ser perseguidas e mortas simplesmente por representarem aquilo que ninguém deseja enxergar: a decadência física, a passagem inexorável do tempo e a própria finitude humana.

À primeira vista, trata-se de uma ficção distópica. À segunda, percebe-se que Bioy Casares talvez não estivesse descrevendo um futuro, mas expondo uma tendência permanente das sociedades que passam a medir o valor das pessoas por sua utilidade, por sua aparência ou por sua capacidade de produzir.

Felizmente, não vivemos uma realidade em que idosos sejam exterminados por sua idade. Todavia, seria ingenuidade imaginar que a discriminação apenas muda de nome quando deixa de ser física. Ela também se manifesta na exclusão silenciosa, na invisibilidade, na perda de oportunidades e na naturalização de um preconceito que poucos ousam reconhecer: o etarismo.

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O preconceito que ainda é tolerado

Vivemos em uma época em que, felizmente, a sociedade passou a repudiar de forma cada vez mais contundente diversas modalidades de preconceito. O racismo, a discriminação de gênero, a intolerância religiosa e tantas outras formas de exclusão ocupam lugar permanente no debate público. Ainda assim, um preconceito continua sendo frequentemente tolerado, banalizado e até considerado natural: aquele dirigido às pessoas idosas.

Envelhecer é um privilégio reservado apenas àqueles que tiveram a oportunidade de viver. Paradoxalmente, porém, quanto mais se vive, menor parece ser o espaço reservado ao indivíduo em uma sociedade obcecada pela juventude, pela velocidade e pela produtividade.

Manifestações sutis do etarismo

O preconceito etário raramente se apresenta de forma explícita. Ele se manifesta quando empresas descartam profissionais experientes apenas porque ultrapassaram determinada idade; quando campanhas publicitárias praticamente eliminam idosos de suas peças; quando tecnologias são desenvolvidas sem qualquer preocupação com acessibilidade; quando consultas médicas resumem qualquer sintoma à expressão “isso é da idade”; ou quando familiares retiram da pessoa idosa o direito de decidir sobre sua própria vida simplesmente porque envelheceu.

O problema é que nada disso é natural.

O que diz a lei brasileira

A Constituição Federal consagra a dignidade da pessoa humana como fundamento da República e estabelece a igualdade como direito fundamental. Mais do que isso, determina que a família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar a pessoa idosa, assegurando-lhe participação na comunidade, dignidade, bem-estar e respeito. O Estatuto da Pessoa Idosa reafirma esse compromisso ao conferir proteção jurídica especial ao envelhecimento.

Entretanto, a distância entre a norma e a realidade permanece evidente.

Sociedade organizada para jovens

Vivemos em uma sociedade que celebra o aumento da expectativa de vida, mas continua organizada para quem é jovem. Exalta-se a longevidade como conquista da medicina, mas frequentemente se transforma o envelhecimento em sinônimo de obsolescência. O profissional experiente passa a enfrentar dificuldades para permanecer no mercado de trabalho. O consumidor idoso torna-se menos relevante para determinados segmentos econômicos. A inovação tecnológica raramente é concebida tendo a pessoa idosa como destinatária.

Exemplo dinamarquês

Alguns países, entretanto, compreenderam que o envelhecimento da população exige muito mais do que discursos de respeito. Exige planejamento. Em Copenhague, na Dinamarca, encontra-se De Gamles By, literalmente “A Cidade dos Idosos”. Trata-se de um complexo urbano concebido para proporcionar autonomia e qualidade de vida às pessoas idosas. Ruas, calçadas, mobiliário urbano, áreas de convivência, equipamentos públicos e serviços foram planejados para atender às necessidades de quem envelheceu. Não há paternalismo nem segregação. Há civilização.

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A comparação é inevitável. Enquanto Bioy Casares imaginou uma sociedade que eliminava simbolicamente seus idosos por considerá-los um peso e por enxergar na velhice apenas a decadência do corpo humano, a experiência dinamarquesa demonstra que uma sociedade verdadeiramente desenvolvida faz exatamente o oposto. Adapta-se ao envelhecimento de sua população e reconhece que a dignidade da pessoa não diminui com a idade.

Escolha civilizatória

Essa talvez seja a principal escolha civilizatória do nosso tempo. Em um ambiente social cada vez mais orientado pela produtividade, pelo consumo e pelo desempenho, corre-se o risco de atribuir valor às pessoas apenas enquanto produzem riqueza. Quando deixam de ocupar posição central na engrenagem econômica, passam a ser vistas como um custo, um peso ou um problema administrativo.

Essa mentalidade, embora menos brutal do que a retratada por Bioy Casares, nasce da mesma raiz: a perda da percepção da dignidade intrínseca da pessoa humana.

O valor de um indivíduo jamais poderá ser medido por sua capacidade de produzir. A dignidade não se aposenta. Os direitos fundamentais não envelhecem. A cidadania não possui prazo de validade.

Ao contrário, a experiência acumulada pelas pessoas idosas constitui patrimônio social insubstituível. São elas que preservam memórias, transmitem conhecimento, sustentam famílias, orientam novas gerações e oferecem uma perspectiva que nenhuma tecnologia será capaz de reproduzir.

Transição demográfica no Brasil

O Brasil atravessa uma acelerada transição demográfica. Em poucas décadas, estará entre os países com maior proporção de pessoas idosas do planeta. O etarismo, portanto, deixou de ser um problema restrito a uma parcela da população. Trata-se de uma questão que, se tivermos a felicidade de viver o suficiente, alcançará todos nós.

Talvez resida aí sua característica mais singular. Diferentemente de outras formas de preconceito, o etarismo possui um destinatário universal. Todos os dias, milhões de pessoas ingressam, inevitavelmente, no grupo social que hoje é discriminado. A única forma de jamais experimentar a velhice é não chegar até ela.

Compromisso com a dignidade

O combate ao etarismo não representa um favor concedido às pessoas idosas. Representa um compromisso com a própria ideia de dignidade humana. Afinal, a grandeza de uma sociedade não se mede pela forma como trata aqueles que estão no auge de sua força física ou de sua produtividade econômica, mas pela maneira como respeita aqueles que dedicaram uma vida inteira à construção do mundo que hoje desfrutamos.

Entre a distopia imaginada por Bioy Casares e a realidade construída em Copenhague existe uma escolha. Essa escolha pertence a todos nós.