Um estudante de 14 anos da rede estadual denunciou ter sido vítima de intolerância religiosa após ser retirado de um ônibus por um motorista em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, na sexta-feira (26). O adolescente afirma que foi o único aluno obrigado a deixar o coletivo, apesar de ter embarcado junto com outros estudantes e estar uniformizado.
Relato do estudante
Luiz Henrique Alves seguia para a escola quando embarcou em um ônibus da linha 726 (Pedrinhas x Sarapuí). Adepto de uma religião de matriz africana, ele usava turbante e guias religiosas quando foi abordado pelo motorista. Segundo o estudante, logo após se sentar, ouviu o motorista pedir que ele deixasse o veículo. “Eu sentei no banco do ônibus e o motorista apontou pra mim e falou: ‘garoto de branco, sai do ônibus agora, por favor’. Eu falei: ‘por que eu vou descer?’”, relatou.
Luiz afirma que o motorista alegou que ele não havia pago a passagem. O adolescente, no entanto, contestou a justificativa. “Eu falei: ‘Ué, mas eu e outros alunos que entraram comigo não pagaram a passagem também’. Depois, outras pessoas avisaram que eu não tinha entrado sozinho”, contou. De acordo com o estudante, o motorista chegou a verificar que outros jovens haviam embarcado da mesma forma, mas manteve a decisão de retirá-lo do coletivo. “Depois de verificar que tinham outros alunos comigo, ele simplesmente me ignorou, ficou me enxotando com a mão, entrou no ônibus e saiu”, disse.
Reação e registro policial
O ônibus seguiu viagem e deixou Luiz para trás. Sozinho, o adolescente decidiu gravar um vídeo e publicar nas redes sociais denunciando o que considera um episódio de discriminação religiosa. “Ele pediu somente para mim me retirar do ônibus. Em meio a um monte de crianças que entraram junto. Eu sou estudante da rede estadual, e é de lei o livre acesso para estudantes”, afirmou no vídeo. A mãe do adolescente, Débora Menezes Torano, questiona a atitude do condutor. “Por que só o meu filho tinha que descer?”, perguntou. O caso foi registrado na 59ª DP (Duque de Caxias), que investiga se houve prática de intolerância religiosa.
Outro caso de intolerância religiosa na cidade
No mesmo dia em que Luiz e os pais prestaram depoimento, a unidade policial também registrou outro caso de violência motivada por intolerância religiosa na cidade. Imagens de câmeras de segurança mostram o momento em que um homem e uma mulher invadem a casa de uma vizinha e destroem objetos ligados a religiões de matriz africana. Segundo a vítima, a agressora teria afirmado que precisava “acabar com o mal”. O casal foi preso em flagrante e indiciado por violação de domicílio e por preconceito de raça, cor e religião. No caso envolvendo o estudante, ninguém havia sido preso até a última atualização desta reportagem.
Posição do estudante e da empresa
Apesar do episódio, Luiz afirma que não pretende abrir mão dos símbolos que representam sua fé. “Eu não poder andar com meu fio de conta é bem frustrante para mim. Para mim, a minha religião é a coisa mais bonita que me aconteceu”, declarou. A Viação Santo Antônio informou que repudia qualquer ato de intolerância ou preconceito e afirmou que está colaborando com as autoridades. "A empresa esclarece que colabora com as autoridades para o completo esclarecimento dos fatos ocorridos nesta sexta-feira (26), na linha 726 (Pedrinhas-Sarapuí), em Duque de Caxias, e que também está apurando internamente, visto que o comportamento relatado não condiz com os valores da empresa e com o treinamento fornecido aos colaboradores que lidam com o público", disse a empresa em nota.



