IA em brinquedos pode criar dependência emocional em crianças, alerta MJ
Brinquedos com IA podem causar dependência emocional

Brinquedos com inteligência artificial podem criar vínculos de dependência emocional com crianças, influenciar seu comportamento e coletar dados pessoais de forma contínua. Esse é o principal alerta de uma nota técnica da Secretaria Nacional de Direitos Digitais (Sedigi), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, que identificou indícios de possíveis irregularidades na comercialização desses produtos no Brasil. Diante dos riscos apontados, o órgão recomendou que a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) e a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) investiguem o caso.

Dispositivos analisados

O estudo analisou seis dispositivos vendidos no país: Loona (pet robótico que interage por voz e inteligência artificial); EMO (robô de companhia que conversa e reage ao usuário); Miko 3 (robô educativo voltado ao aprendizado infantil); Aibi (pet robótico de bolso que aprende com as interações); Amazon Fire HD Kids Pro (tablet infantil com recursos de inteligência artificial); e Vector (robô autônomo que conversa e executa comandos). Apesar das diferenças entre os modelos, a nota técnica afirma que todos compartilham características que exigem atenção. Eles utilizam inteligência artificial para manter conversas, aprender com as interações, captar informações por câmeras e microfones e, em alguns casos, acessar a internet para personalizar a experiência do usuário.

Segurança e manipulação emocional

Segundo o Ministério da Justiça, essas funcionalidades permitem a coleta contínua de dados como voz, imagem, biometria e informações do ambiente doméstico. O documento alerta que esse monitoramento pode resultar na criação de perfis comportamentais de crianças e de suas famílias, sem que pais ou responsáveis tenham clareza sobre o tratamento dessas informações. A principal preocupação, porém, é o impacto emocional. “Os brinquedos inteligentes representam um caso particularmente preocupante”, afirma a nota técnica, porque “combinam interação afetiva com coleta contínua de dados”. Segundo o documento, essas características podem favorecer a dependência emocional, a manipulação de comportamento e o uso excessivo dos dispositivos.

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Exemplo internacional

Como exemplo, a nota técnica cita a boneca “My Friend Cayla”, proibida na Alemanha em 2017 após autoridades concluírem que o brinquedo podia gravar conversas acessadas por terceiros. Na época, o dispositivo chegou a ser chamado de “instrumento de espionagem”. Diante desse cenário, o Ministério da Justiça também propõe mudanças na forma como esses produtos são comercializados. A nota técnica recomenda que fabricantes e plataformas de venda informem de forma clara quando um brinquedo utiliza inteligência artificial, acessa a internet, coleta dados pessoais e exige supervisão dos pais durante o uso.

Recomendações e próximos passos

O documento também orienta que marketplaces passem a exigir dos fabricantes a comprovação de que esses avisos aparecem tanto nas embalagens quanto nas páginas de venda. Ao justificar a recomendação de investigação, a nota técnica afirma que “os fatos relatados apontam para indícios de possíveis irregularidades, de caráter sistêmico, com potencial de afetar direitos fundamentais de crianças e adolescentes, o que recomenda a apuração formal”. Caberá agora à Senacon e à ANPD avaliar esses indícios e verificar se fabricantes, importadores, vendedores e plataformas cumprem as exigências previstas no ECA Digital e na legislação de proteção de dados.

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