Por muito tempo, os grandes eventos globais de tecnologia seguiram um padrão previsível: replicar e responder às tendências originadas no Vale do Silício. No entanto, para Paddy Cosgrave, fundador e CEO do Web Summit, a ascensão de mercados como a China e o Brasil está desafiando essa hegemonia. Em breve, o Web Summit deve ganhar uma edição na China.
Expansão para a China
“Estamos ativamente conversando com várias cidades, e quando encontrarmos o casamento perfeito, como o nosso casamento com o Rio, vamos compartilhar”, afirmou Paddy durante coletiva de imprensa no Web Summit Rio. O CEO não revelou detalhes sobre data ou local, mas mencionou a possibilidade de realizar o evento na China continental, além de Hong Kong, onde a organizadora já promoveu o spinoff Rise, que deve ser retomado no próximo ano. “Pode ser Hong Kong, talvez Guangzhou ou Shenzhen. Ainda está sendo decidido”, disse, destacando que o mercado asiático é prioridade na estratégia do Web Summit. Atualmente, a marca realiza eventos em Lisboa, Rio de Janeiro, Vancouver e Doha.
Conexão com a Ásia
Paddy acredita que a ponte com a Ásia passa pelo Rio de Janeiro: “Antecipo que, no futuro, a presença chinesa vai crescer, mas também a de outros países da região, como o Vietnã”. A ascensão tecnológica da China deve ser tema central da próxima edição em Lisboa. “Um grande tema será os modelos de código aberto chineses versus os modelos ocidentais fechados. Dados da Ramp mostram que o DeepSeek já superou OpenAI e Anthropic no uso por negócios americanos. Para mim, isso é incrível”, projetou.
Vale do Silício versus o mundo
Questionado se o Web Summit poderia ser uma arena para ideias de fora do Vale do Silício competirem com as big techs, Paddy preferiu ser diplomático: “Não vejo como um campo de batalha, como um octógono do UFC. É mais um lugar de encontro global”. No entanto, o evento no Rio reforçou a tendência observada em Lisboa no ano passado, com aumento da presença de empresas chinesas. “Como o evento provou ser um local de encontro eficaz, mais empresas de outras regiões estão aqui”, acrescentou.
Há mais de 15 anos à frente do Web Summit, Paddy vê nessa convergência uma mudança estrutural na geografia da inovação. “Há 17 anos, quase toda a tecnologia vinha do Vale do Silício, e achava-se que o resto do mundo nunca poderia competir. Tudo o que as pessoas podiam fazer era imitar. Isso mudou: o papel do Vale do Silício declinou e o resto do mundo cresceu”, afirmou. Como exemplo, citou Shenzhen: “Em 2008, poucos conheciam a cidade. Hoje, quem trabalha com tecnologia não pode ignorá-la. É um milagre”.
O caso brasileiro
No Brasil, o Pix é um exemplo de tecnologia que dita tendências e incomoda gigantes internacionais. Recentemente, o governo dos EUA investigou o Pix, levantando debates sobre soberania e controle de meios de pagamento. “O Brasil pode revolucionar o mundo das fintechs por causa do Pix. É incrível o que ele alcançou em tão pouco tempo”, disse Paddy. “É um assassino de monopólios. Nivela o campo de jogo e remove custos enormes da economia digital. Por que devemos dar 2% a alguém a cada transação? Isso é loucura”, criticou.
O CEO contou que o sistema ainda é pouco conhecido fora do Brasil. “As pessoas ficam surpresas quando mostramos os números de crescimento do Pix. Sei que o Banco Central tem reuniões com outros bancos centrais do Hemisfério Sul, mas espero que isso chegue à Europa de alguma forma.”
Big techs de olho
Perguntado se a inovação fora do Vale do Silício pode dominar os incumbentes, Paddy revelou que as big techs já observam o que acontece fora de seu “mundinho”, mesmo que não admitam. “A verdade escondida do Vale do Silício é que eles têm assistido e também copiado, porque há inovação importante em outros lugares. No espaço das fintechs, eles estão assistindo ao Pix e suas consequências. É tão disruptivo que não vai parar em Brasília: aparecerá em diferentes formas em outros países, com sérias consequências para os incumbentes de pagamentos do Vale do Silício e dos EUA”, finalizou.



