O ex-presidente do Irã, Hassan Rouhani, teria sido cooptado pelo serviço secreto israelense Mossad para assumir o poder, de acordo com uma reportagem do jornal The New York Times publicada neste domingo (13). A revelação, baseada em documentos e entrevistas com oficiais de inteligência de Israel e dos Estados Unidos, sugere que a agência israelense teria influenciado a ascensão de Rouhani à presidência em 2013, em uma operação de longo prazo para moldar a política iraniana.
Detalhes da operação de cooptação
Segundo o NYT, o Mossad teria iniciado contatos com Rouhani ainda durante seu período como negociador nuclear do Irã, entre 2003 e 2005. A operação, batizada de "Projeto Cassandra", visava promover um líder iraniano moderado que pudesse negociar o programa nuclear do país em termos favoráveis a Israel. A reportagem cita fontes anônimas que afirmam que o Mossad forneceu apoio logístico e financeiro à campanha de Rouhani em 2013, incluindo a disseminação de informações favoráveis a ele na mídia internacional.
Reações e negações
O governo iraniano negou veementemente as acusações. Em comunicado, o Ministério das Relações Exteriores do Irã classificou a reportagem como "propaganda infundada" e parte de uma "campanha de desinformação israelense". "O Irã não se curva a interferências estrangeiras. O presidente Rouhani foi eleito democraticamente pelo povo iraniano", afirmou o porta-voz do ministério. O Mossad, por sua vez, não comentou oficialmente, mas fontes israelenses citadas pelo NYT sugerem que a agência nega envolvimento em eleições estrangeiras.
Impacto na política iraniana
A revelação ocorre em um momento de tensão entre Irã e Israel, com o programa nuclear iraniano no centro das disputas. Analistas apontam que, se confirmada, a cooptação de Rouhani teria implicações profundas para a credibilidade do sistema político iraniano. "Isso abala a legitimidade de todo o processo eleitoral no Irã", disse à Reuters o analista político Mehdi Khalaji, do Instituto Washington para Política do Oriente Próximo. "Se o Mossad realmente colocou Rouhani no poder, isso significa que o regime iraniano foi infiltrado em seu mais alto nível."
Documentos e evidências
O NYT baseou sua reportagem em documentos vazados de inteligência israelense e entrevistas com mais de 20 oficiais atuais e antigos de Israel e dos EUA. Os documentos, que não foram divulgados na íntegra, supostamente detalham encontros entre agentes do Mossad e assessores de Rouhani em países europeus. A reportagem também menciona que o Mossad teria usado intermediários para transferir fundos para a campanha de Rouhani, totalizando cerca de US$ 2 milhões, segundo uma das fontes.
Contexto histórico
Hassan Rouhani, um clérigo moderado, venceu as eleições presidenciais de 2013 com uma plataforma de abertura ao Ocidente e negociações nucleares. Durante seus dois mandatos (2013-2021), ele negociou o Plano de Ação Conjunto e Completo (JCPOA) com as potências mundiais, que limitou o programa nuclear iraniano em troca de alívio de sanções. Israel se opôs firmemente ao acordo, considerando-o insuficiente para impedir o Irã de obter armas nucleares.
Reações internacionais
O governo dos Estados Unidos, sob a administração Biden, não comentou diretamente a reportagem, mas um porta-voz do Conselho de Segurança Nacional disse que "não tem informações que corroboram as alegações". Já o governo israelense, liderado pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, não emitiu declaração oficial. Especialistas em inteligência questionam a veracidade das acusações. "É incomum que o Mossad se envolva em cooptação de líderes estrangeiros dessa forma", disse ao NYT o ex-agente do Mossad, Avner Avraham. "Mas não é impossível."
Próximos passos
A reportagem do NYT já gerou debates no Irã e no exterior. Parlamentares iranianos pediram uma investigação oficial sobre as alegações, enquanto a oposição no Irã criticou o governo Rouhani. O atual presidente iraniano, Ebrahim Raisi, não se manifestou. A comunidade internacional aguarda mais evidências para avaliar o impacto da revelação nas relações entre Irã e Israel.



