Espiões russos encontram refúgio no Japão para abastecer guerra
Após a invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022, líderes ocidentais expulsaram centenas de espiões russos de suas capitais e sancionaram empresas ligadas ao Kremlin. No entanto, dezenas desses agentes reapareceram em um local inesperado: o Japão. As leis de espionagem brandas do país e sua florescente indústria de alta tecnologia tornaram o Japão uma peça crucial no esforço de guerra russo. Segundo estimativas do governo ucraniano, cerca de 90% dos mísseis e drones russos contêm componentes japoneses.
No centro da operação em Tóquio está a 20ª Diretoria, uma unidade secreta de inteligência militar russa (GRU). Seus agentes, disfarçados de diplomatas ou empresários, compram ou roubam tecnologia bélica e a contrabandeiam para a Rússia, de acordo com funcionários atuais e antigos de cinco agências de inteligência ocidentais. O supervisor das operações em Tóquio mantém identidade secreta como funcionário da Aeroflot, a companhia aérea estatal russa.
O papel de Maksim Filchenkov e a 20ª Diretoria
Maksim Vladimirovich Filchenkov, de 49 anos, assumiu o posto em Tóquio em fevereiro de 2024. Veterano do GRU, ele já tinha experiência no Japão e foi encarregado de adquirir componentes de alta tecnologia essenciais para a guerra de drones contra a Ucrânia. Segundo registros comerciais e entrevistas, Filchenkov desenvolveu relações com empresas de logística que enviam mercadorias do Japão para a Rússia, muitas vezes usando registros de envio fraudulentos.
A 20ª Diretoria, que antecede a guerra, tornou-se fundamental para os esforços do Kremlin em obter tecnologia militar. Desde a era soviética, espiões do GRU usaram empregos na Aeroflot como fachada. O escritório da Aeroflot em Tóquio fica a 10 minutos a pé da sede da Agência Nacional de Polícia, responsável por investigações de espionagem. Autoridades ocidentais afirmam que é ali, no 22º andar, que Filchenkov comanda sua operação.
Contrabando via Proco Air e parceiros
Uma das empresas parceiras da Aeroflot é a Proco Air, que se anuncia como uma “ponte entre o Japão e a Rússia”. A empresa aluga espaço de carga em voos comerciais para países como Sri Lanka ou Uzbequistão, onde a Aeroflot coleta a carga e a transporta para a Rússia. Autoridades de inteligência ocidentais afirmam que esses acordos são essenciais para as operações da 20ª Diretoria.
O proprietário da Proco Air, Takehiko Miki, disse conhecer Filchenkov desde 2018, mas negou saber de suas ligações com a inteligência russa. Ele afirmou transportar apenas mercadorias autorizadas, “principalmente equipamentos médicos e alguns cosméticos”. No entanto, um documento de remessa mostrou que Miki fazia negócios com a R-Pharm, uma empresa farmacêutica de Moscou cujo fundador, Aleksei Repik, foi sancionado pela Austrália, Grã-Bretanha e Canadá devido a seus laços com Putin. Repik declarou publicamente seu apoio à guerra.
Alertas diplomáticos e resposta do Japão
Governos estrangeiros têm alertado repetidamente o Japão sobre o contrabando de tecnologia. Em abril de 2025, a Ucrânia enviou ao menos oito cartas diplomáticas formais ao Ministério das Relações Exteriores do Japão, detalhando componentes japoneses encontrados em mísseis e equipamentos militares russos, incluindo placas de circuito impresso, transmissores e semicondutores. As cartas citavam empresas como Nippon Electric Corp., Panasonic e Toshiba, que negaram irregularidades.
O Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão afirmou ter emitido alertas a empresas e incluído dezenas de entidades estrangeiras suspeitas de ajudar a Rússia a contornar sanções. No entanto, o governo japonês tem agido com lentidão. O parlamentar Akihisa Shiozaki, do Partido Liberal Democrático, disse: “Temos uma sensação de crise em relação a esta situação”. O Ministério das Relações Exteriores do Japão declarou que a agressão russa “abala os próprios alicerces da ordem internacional”, mas não respondeu a perguntas detalhadas sobre espionagem.
Fragilidade da inteligência japonesa
O Japão é conhecido como um paraíso para espiões devido às restrições impostas após a Segunda Guerra Mundial, que mantêm seus serviços de inteligência fracos. O país sequer possui uma agência de inteligência estrangeira. Sob a liderança da primeira-ministra Sanae Takaichi, o Japão iniciou um programa para reforçar capacidades de inteligência, mas a ausência de legislação específica sobre espionagem dificulta a ação. Em janeiro, a polícia de Tóquio descobriu um agente russo que se fazia passar por ucraniano, mas ele já havia deixado o país antes das acusações.
Filchenkov não foi alvo de ação das autoridades japonesas. Quando repórteres do The New York Times visitaram o escritório da Aeroflot, ele não estava disponível e se recusou a conversar. A mulher que atendeu disse que ele não queria falar.



